
Marcelo Ariel
Inicio aqui a compilação das melhores entrevistas publicadas na internet com escritores brasileiros. Entrevista concedida por Bruno Tolentino a Claúdia Cordeiro dos Reis, publicada originalmente no site: http://www.plataforma.paraapoesia.nom.br/2005btentrevista.htm
CR.: Após tanta polêmica sobre sua vida pessoal nos maiores jornais e nas tv's do país, onde se configura não só o banido da "República" de Platão, o grande poeta, mas outros tantos "brunos", poderia nos dar um perfil abrangente do homem Bruno Tolentino, hoje? Quem é Bruno Tolentino?
Bruno Tolentino (63): Olha, não é fácil avaliar-se a si mesmo, especialmente a quem lhe importa sobretudo o prodigioso trabalho da graça divina sobre o sempre iminente desastre humano. Por exemplo: à meia-noite o citado Fulano de Tal invariavelmente me parece um pobre diabo que a Providência insiste em cobrir de favores inexplicáveis e acaba por constranger com uma pletora de dons cada vez mais difíceis de justificar pelo bom uso. Em favor do pilantra pode-se, talvez, alegar uma integridade intelectual que reconhecidamente nunca esteve no balcão das conveniências e cambalachos; com maior ou menor justiça, já fui acusado de vários tráficos, de divisas, de drogas, de armas, mas nunca de tráfico de influência! Nesse sentido, Antônio Houaiss, escrevendo sobre Os deuses de hoje, em 1996, refere-se a este marginal nato como "o intérprete destes tempos que não busca o compadrio dos expertos e artimanhosos..." Com efeito: fiz inúmeros amigos no sub-mundo, troquei a universidade pela cadeia e de ambas saí com um nome limpo, pois nunca tive nada a ver com o crime organizado, muito menos com a versão dele que assola a República das Letras. É possível que meu traço mais inamovível seja mesmo certa ingenuidade quase infantil frente à relação arte-vida, o que certa vez levou Ungaretti a me apresentar a Carlo Levy como sendo "o único gênio retardado que eu conheço" (l'único genio deficiente che io conosca). Quanto a um outro traço meu bem mais deplorável, a língua ferina entortada pelo vício da ironia, quando não do sarcasmo, Christiane Martin du Gard dizia à Paris dos anos 70 que se tratava de uma espécie de "anjo do mal a serviço do bem" (l'ange du mal au service du bien). Espero bem que não se enganasse, mas disso não sou obviamente o melhor juiz... Já Samuel Beckett, apresentando supõe-se que o mesmo personagem à Franco-Irish Society em 1981, dele disse que "este vertiginoso imprudente" (ce vertigineux imprudent) seria uma espécie de “pendant” literário do sujeito que "não sabendo que era impossível o que se propunha fazer, foi lá e o fez..." (tha guy who, not knowing it was impossible to do it, went there and did it). Mas me comove bem mais o que li recentemente de um poeta que tenho em alta conta como artista e como homem: este carioca metido a inglês seria um bocó que "dedicou a vida ao serviço de Deus e da Poesia com coragem jesuítica e humildade franciscana..." Tomara, ou antes: quem dera, porque si non è vero è bem trovato!CR.: Em polêmica intelectual você substituiu à altura o excelente José Guilherme Merquior, levando-o a ser odiado por certas pessoas de certas correntes intelectuais do Brasil. Segundo Paulo Polzonoff Jr, artigo para o jornal Rascunho, de Curitiba, você "é odiado porque é bom". O lançamento do seu livro O Mundo como Idéia, em relação à poesia, uma arte sempre subestimada nesta sociedade frívola de consumo, teve uma acolhida crítica altamente positiva, fazendo qualquer ódio se recolher. Que significa esse livro para você?
CR.: Apesar de confessar-se aristotélico, em O Mundo como Idéia, uma reflexão lírica sobre a história da cultura ocidental, você entraria na República de Platão, embora a obra não seja, propriamente, como gostaria o filósofo, uma mimese de segundo grau, uma cópia da história. Na verdade, embora resista talvez a essa idéia, você é um poeta completo no sentido horaciano, lírico e satírico. Embora tenha livros satíricos, mesmo sua obra lírica está vazada pela sátira, diferentemente da poesia didática de Cabral, que usa a sátira episodicamente. E por que diz que sua admiração é Ovídio?
CR. As experiências vanguardistas de Mallarmé, Apollinaire, E. E.Cummings e Pound repercutiram em alguns países no Ocidente. Para o crítico chileno J. M. Ibáñez Langlois, Pound influenciou, sozinho, "as última vanguardas hispano-americanas - a antepoesia, a poesia coloquial, a crônica poética, e a poesia narrativa". No Brasil, a metástese configurou-se em movimentos como a Poesia Concreta, a Instauração Praxis, o Neo-Concretismo, e o Poema-Processo, para citar apenas os que constam nos livros colegiais. quando as vanguardas brasileiras se esgarçaram, falou-se que entramos na onda estética, surgida fora do país, e que se convencionou chamar de pós-modernismo. Baixada a poeira, há quem considere que as vanguardas, principalmente as formalistas, tinham um propósito construtivo, ao lado do propósito de "destruição do passado", que seria o de dar ao poema uma autonomia formal, depois que a versolibrismo bagunçou o coreto e todo mundo se meteu a fazer poesia. Você reconhece esse mérito?
CR.: Em 1994, logo após a publicação de As Horas de Katharina, você voltou algumas vezes, fez palestras, participou de seminários, e estão nos arquivos da Fundação Joaquim Nabuco a sua Aula Magna, de abril de 1997, agora também reproduzida parcialmente, das páginas 43 a 53, no medular ensaio IV, “A Sombra da Carne & o Drama da Razão”, de O Mundo Como Idéia. Mas sua primeira grande polêmica, que por aqui funcionou como verdadeiro rastilho de pólvora incendiado, foi citar, nas páginas amarelas da revista Veja de 20 de março de 1966, um dos nossos poetas como um dos maiores da lírica brasileira. Ora, a crítica do sul do país, principalmente, vem alardeando, depois da morte de Cabral, que a poesia pernambucana não existe. Você concorda com esse argumento?
CR.: A IV Feira Internacional do Livro, a se realizar entre os dias 4 a 12 de outubro, do corrente ano, aqui em Pernambuco, vai ter como homenageada a Geração 65. Ela nasceu silenciada pela ditadura política e pela ditadura estética das vanguardas brasileiras, paradoxalmente ao advento da televisão no país que presumia uma democratização da informação, da boa informação. As vanguardas tinham níveis de recepção invejáveis e, numa geografia abrangente, podemos observar que, rumando do Sul para o Norte, uma inquietante sombra obscurece a produção literária de escritores das décadas de 70 e 80. Salvo exceções episódicas nenhum poeta da Geração 65 aderiu a essas vanguardas, reforçando assim o já famoso isolacionismo da poderosa mídia do Sul, em relação ao resto do país. Alberto da Cunha Melo, Almir Castro Barros, Ângelo Monteiro, Lucila Nogueira, Marco Polo, Marcus Acciolly, Tereza Tenório, para citar aqui, entre aproximadamente trinta escritores, aqueles que tiveram obras recentemente lançadas, são poetas dessa Geração. Qual a sua opinião sobre a poesia produzida por eles?
CR.: Você afirmou, recentemente, que "Poesia é fonte, prosa é água de balde..." Poderia explicar melhor essa afirmativa?
BT.: Afirmativa não, provocação, um arroto à mesa com o fim de instigar o debate sobre uma questão crucial na qual se tem pensado pouco por aqui. A equação é simples: há água de fonte e água encanada, a que sai da torneira a um mero gesto distraído da mão, uma água que é sempre água, claro, mas que ainda assim é e não é a mesma. Há aquele elemento vital que surge das profundezas, e há a poça, o açude, a represa... Mas deixemos a metáfora, até porque não há nada demais na trans-formação de uma nascente em canal de irrigação, por exemplo. O fato é que a linguagem profunda de um povo é sempre musical, ou seja, vem do ventre telúrico, obscuro, elementar, do mistério humano, como no famoso soneto de Rilke (O Brunnen-Mund, du Gebender, du Mund...) sobre a "boca da fonte" com que a terra se fala a si-mesma no "ouvido de mármore de um tanque..." A poesia nasce dessas profundezas e mobiliza as forças do ser inteiro a partir das raízes do sentimento rumo aos cumes do entendimento. A prosa dita "de ficção" é um fenômeno recente, mais uma inflamação pós-renascentista, ou seja, um sinal do declínio das faculdades superiores do espírito humano, o abandono do campo do espírito – que é sempre uno, a um tempo aglutinador e analítico – às parvices conceitualizantes do meramente especulativo; para este, de resto, sempre houve a filosofia, o ensaio reflexivo que, estes sim, são do domínio da mente total e alerta, onde a vida do espírito não se abandona ao aleatório nem se deixa contaminar pelo simplesmente instintual. A paixão do anedótico é o exato oposto do espírito de síntese, e este pertence por natureza à linguagem da emoção elucidada. Eliot observa que onde a emoção se adensa a mesma prosa começa a ritmar-se, a beirar aquele transbordamento da percepção na iluminação que chamamos "poesia", trate-se de verso ou não. Não é à toa que o poema em prosa nasce do desconcerto existencial oitocentesco, das falências e carências da emoção às turrras com a reflexão no século XIX. Note-se, nesse sentido, que o romance, por exemplo, só se firma no século XVIII, na esteira da baboseira iluminista, essa mãe-madrasta de todas as bisbilhotices. Ilustra esse ponto o fato, por exemplo, de que ao ápice de seu embasbacamento, o século de Kant, que sucede ao de Descartes e precede o de Hegel (A Chatíssima Trindade), o século XVIII não produziu um só poeta maior, nenhum verdadeiramente grande; em compensação, a esterilidade emocional-reflexiva era de tal ordem por aqueles tempos que até Voltaire "se meteu a fazer poesia"... Nessa perspectiva, Goethe, a rigor, não é um contemporâneo do intrigante Gepetto de Candide, menos ainda um cupincha do Idealismo Alemão (que seria mais cor-reto chamar de conúbio franco-germânico, daí o parentesco da Guilhotina com o Forno Crematório de Auschwitz...). Nada disso, o mestre do Dichtung und Warheit é um tradutor do uno no vário, um mediador, se quisermos, do espírito do classicismo no tumultuoso Stimung do primeiro romantismo, o de Novalis, Schiller, Hoelderlin, Heine, Blake, Nerval... Todos, observe-se, vozes do século seguinte, o XIX, o século em que nasce a figura do poeta maldito, que é quando a poesia rompe com o status quo, e a prosa, ainda que grandiosa em seus primórdios, passa a imperar, cada vez mais travestida de aia de luxo da Dama Idéia. O processo parece irreversível, mas o irremediável, o incurável, não indicam nenhuma superioridade da doença sobre o corpo sadio, é apenas uma fatalidade, uma, no caso, particularmente lamentável. Porque, se tivemos Tolstoy, Balzac, Flaubert, Dostoi-ewski, Austen, Dickens, Machado, Conrad, Checov, Proust, Borges, James, Mann, Joyce, Musil, Faulkner, e tantos outros cimos da mais fina arte de prosa, em compensação a poesia foi gradual-mente sumindo ou se encolhendo, até virar letra de canção nas periferias mais desvalidas... A coisa anda tão mal das pernas em certas filiais do Congo que, hoje em dia, até inteleco-teco-tuais ganham diploma de poeta porque usaram ao mesmo tempo duas rimas e três neurônios...CR.: Nestes tempos em que cada vez mais se reivindica uma universidade pragmática e aliada ao desenvolvimento tecnológico, é bom lembrar o que disse Otto Maria Carpeau, em seu livro A Cinza do Purgatório: "As velhas universidades são de utilidade muito reduzida. Elas não formam homens práticos; formam o tipo ideal de nação: o lettré, o gentleman, o gebildeter". Para ele, estas forjaram " a história espirirual das nações". Entre os dois tipos, com qual se identifica a universidade brasileira? Com qual deles você se identifica?

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