Alessandro Atanes, para o PortoGente

Ponta da Praia, uma das metades da laranja de Santos
Já escrevi antes sobre Santos Revisitado, poema de Pablo Neruda. Em Três poemas chegam no porto de Santos e As escalas de Pablo Neruda traço relações entre o espaço geográfico dos portos e a literatura que os toma por cenário, o que, no poema de Neruda, ocorre principalmente na primeira parte. A abordagem de hoje é mais especulativa, tem origem em uma leitura pública no sábado, no Sarau Caiçara, na Pinacoteca de Santos, quando o escritor Flávio Viegas Amoreira leu e comentou a segunda, terceira, quarta e quinta partes do poema, de versos como
Pode-se sempre argumentar que a leitura de Flávio tenda a ser forçada, mas os versos “perdoem algum dia se não vi o crescimento dos edifícios / porque estava olhando crescer uma árvore, perdão.” permitem tal interpretalção.
Mas este não é o único caso de ficcionalização dos conflitos territoriais na cidade portuária. O livro-torpedo de Zéllus Machado traz uma paródia do início da era dos empreendimentos imobiliários, ainda na década de 90, na fictícia cidade de Sotnas. Também no Sarau, o próprio Zéllus alertou sobre o perigo imobiliário que cerca “nossa Santos”, um “nossa” que soava como “de todos”.
Outro conflito, aquele entre as operações portuárias e a cidade, surge em forma ficcional em 2005, ano de publicação de História dos ossos, em que Alberto Martins nos mostra a história de um homem chamado pela administração do Cemitério do Paquetá para tirar dali a ossada de seu pai porque o local seria transformado em um pátio de contâineres. E o achado dessa imagem não se resume a apresentar o conflito urbano. Essa transformação espacial (do cemitério) tem valor narrativo. É ela que faz o protagonista disparar pelas ruas antigas de parte de sua infância.
A literatura mostra apenas que o conflito está aí e reaparece continuadamente das mais variadas formas. Logo, logo, o pré-sal irá impor à região uma nova riqueza e ela trará novas representações urbanas, arquitetônicas e até estéticas (para melhor ou pior, depende sempre dos humores de cada um). Qual poeta irá profetizar tal novo tempo?
A encruzilhada está aí à frente: para um lado a placa aponta para a Miami Brasileira e suas piscinas do filme Cocoon; ao outro indica um caminho talvez distante no tempo, em direção à Barcelona Brasileira. Os que inclinam o espírito a este segundo resistem, estão por aí produzindo e algumas vezes já tive a oportunidade de registrar o trabalho desta turma (leia aqui).
Para qual lado penderá a riqueza do pré-sal?
Referências:
Alberto Martins. História dos ossos. São Paulo: Editora 34, 2005.
Pablo Neruda. A Barcarola. Tradução de Olga Savary. 2ª edição. Porto Alegre: LP&M, 2007 (1ª ed 1967).


Ponta da Praia, uma das metades da laranja de Santos
IV
Santos, oh desonra do olvido, oh paciência
do tempo, que não só passou
mas que trouxe barcos brancos, verdes, sutis
e o tremor florestal se fez ferruginoso.
V
Compreendo que escutei a esfera pondo o ouvido em um ponto
e às vezes ouço um rumor de marés ou abelhas:
perdão se não pude e a tempo escutar essa locomotiva
ou o estrondo espacial da nave que estala em seu ovo de aço
e que sobe silvando entre constelações e temperaturas,
perdoem algum dia se não vi o crescimento dos edifícios
porque estava olhando crescer uma árvore, perdão.
Tratarei de cumprir com aquelas cidades que fugiram de minha almaE o poema, publicado em 1967, fecunda uma reflexão de Flávio sobre o corrente impacto da especulação imobiliária na cidade de Santos, esta cidade-laranja de duas metades, que se há 40 anos poderia esperar alguma harmonia – “metade de ouro” e respeito ao “cimento crescente” – hoje quase se rende à arquitetura Art Nojô.
e se armaram de duras paredes, elevadores altivos,
deixando -me fora na chuva, olvidado nos anos ausentes,
agora que volto de então tiro o chapéu, e rio
saudando este grande esplendor sem desejo nem inveja:
sentindo-me vivo como uma laranja cortada conserva em
sua metade de ouro o intacto vestido de ontem
e no outro hemisfério respeita o cimento crescente.
Pode-se sempre argumentar que a leitura de Flávio tenda a ser forçada, mas os versos “perdoem algum dia se não vi o crescimento dos edifícios / porque estava olhando crescer uma árvore, perdão.” permitem tal interpretalção.
Mas este não é o único caso de ficcionalização dos conflitos territoriais na cidade portuária. O livro-torpedo de Zéllus Machado traz uma paródia do início da era dos empreendimentos imobiliários, ainda na década de 90, na fictícia cidade de Sotnas. Também no Sarau, o próprio Zéllus alertou sobre o perigo imobiliário que cerca “nossa Santos”, um “nossa” que soava como “de todos”.
Outro conflito, aquele entre as operações portuárias e a cidade, surge em forma ficcional em 2005, ano de publicação de História dos ossos, em que Alberto Martins nos mostra a história de um homem chamado pela administração do Cemitério do Paquetá para tirar dali a ossada de seu pai porque o local seria transformado em um pátio de contâineres. E o achado dessa imagem não se resume a apresentar o conflito urbano. Essa transformação espacial (do cemitério) tem valor narrativo. É ela que faz o protagonista disparar pelas ruas antigas de parte de sua infância.
A literatura mostra apenas que o conflito está aí e reaparece continuadamente das mais variadas formas. Logo, logo, o pré-sal irá impor à região uma nova riqueza e ela trará novas representações urbanas, arquitetônicas e até estéticas (para melhor ou pior, depende sempre dos humores de cada um). Qual poeta irá profetizar tal novo tempo?
A encruzilhada está aí à frente: para um lado a placa aponta para a Miami Brasileira e suas piscinas do filme Cocoon; ao outro indica um caminho talvez distante no tempo, em direção à Barcelona Brasileira. Os que inclinam o espírito a este segundo resistem, estão por aí produzindo e algumas vezes já tive a oportunidade de registrar o trabalho desta turma (leia aqui).
Para qual lado penderá a riqueza do pré-sal?
Referências:
Alberto Martins. História dos ossos. São Paulo: Editora 34, 2005.
Pablo Neruda. A Barcarola. Tradução de Olga Savary. 2ª edição. Porto Alegre: LP&M, 2007 (1ª ed 1967).

Não conhecia o poema do Neruda e fiquei boquiaberto com a sua atualidade . Nos últimos anos notei que a cidade está mudando com empreendimentos que lembram a barra da tijuca
ResponderExcluirintertextual realidade... ou como o mar se transformou em arranha-céus
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