quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Em favor do Nobel para Lêdo Ivo

Adelto Gonçalves, doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003).

I
Fosse Lêdo Ivo poeta da língua inglesa ou francesa ou mesmo castelhana, já teria sido galardoado ou ao menos indicado para o Prêmio Nobel de Literatura. Como, porém, faz poesia num país periférico e de pouca representatividade econômica e cultural, e vale-se de um idioma que, embora falado por mais de 200 milhões, ainda é visto pelo resto do mundo como um código secreto, essa é uma hipótese pouco viável, até mesmo porque as próprias instituições acadêmicas do País, que deveriam propor o seu nome, não se animam a fazê-lo.

E não deveria ser assim – pois, afinal, se países igualmente periféricos e até menos representativos do ponto de vista econômico, como Chile e México, já tiveram poetas reconhecidos com o Nobel, o Brasil não deveria ser tão menosprezado pelos eruditos da Academia Sueca. A diferença é que Gabriela Mistral (1889-1957), Nobel de 1945, e Octavio Paz (1914-1998), Nobel de 1990, fizeram poesia na língua de Cervantes (1547-1616). Por esse mesmo raciocínio, é de imaginar que se o galego Camilo José Cela (1916-2002), Nobel de 1989, não tivesse desprezado tanto a cultura de sua terra-mãe, a Galiza, e não tivesse escrito suas obras em castelhano, provavelmente, nunca teria sido lembrado pela Academia Sueca.

Portanto, concluiria o desavisado leitor, o preterimento só se explica pela pouca representatividade desta língua que Olavo Bilac (1865-1918) chamou de “última flor do Lácio, inculta e bela”. Mas não é assim porque a ideia perdeu força em 1998, quando o primeiro Prêmio Nobel de Literatura saiu para a língua portuguesa, na pessoa do romancista José Saramago. Se Portugal, praticamente, organizou uma força-tarefa para garantir a premiação a Saramago – e o fez muito bem – e, com justa razão, ainda luta para que António Lobo Antunes também seja reconhecido, não há motivo para que o Brasil não apresente um bom candidato, ainda que, em outros tempos, quando Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e Jorge Amado (1912-2001) eram vivos, houvesse maiores possibilidades de êxito.
Até porque, se uma língua é representativa na medida em que aqueles que a falam desfrutam de riqueza material, o Brasil já começa a se aproximar desse patamar, pois, segundo previsões das autoridades financeiras mundiais, em 2016, o País deverá passar a quinta maior economia do planeta. E, por esse ponto de vista materialista, a língua de Camões (c.1524-1580) já começa a ganhar também representatividade.

II
Hoje, a candidatura brasileira resume-se a dois ou três nomes. E um deles, com certeza, é o do poeta Lêdo Ivo, que, em quase sete décadas de trabalho produtivo, oferece uma obra de respeito, como poderá comprovar quem vier a ler sua extensa Obra Completa (1940-2004), de 1099 páginas, publicada em 2004 pela editora Topbooks, do Rio de Janeiro, com estudo introdutório do poeta Ivan Junqueira. É de notar que, se Junqueira foi o último grande poeta-ensaísta, daqueles da estirpe de T.S.Eliot (1888-1965), a se ocupar da análise da obra de Lêdo Ivo, outros ensaístas de envergadura já o haviam feito, como Antonio Candido, Álvaro Lins (1912-1970), Jorge de Lima (1893-1953), Murilo Mendes (1901-1975), Wilson Martins, Fausto Cunha (1923-2004), Gilberto Mendonça Teles e, mais recentemente, Assis Brasil, autor de A trajetória poética de Lêdo Ivo: transgressão e modernidade, publicado pela Editora Universitária Candido Mendes (Educam), do Rio de Janeiro, em 2007, que constitui, ao mesmo tempo, um ensaio crítico e uma biografia.

Diz Junqueira que Lêdo Ivo chegou inteiro aos 80 anos de idade e inteira também chegou a sua poesia. “E há em sua poesia o testemunho literário de mais de meio século de experiência e de constante renovação estética e estilística”, constata, lembrando que “sua poesia, embora severa do ponto de vista do uso da língua, é polifônica e tem algo da composição heteróclita daqueles retábulos medievais, abrangendo o cultivo de todos os metros e de todas as formas”.

É Lêdo Ivo autor, entre tantas obras, de Finisterra (1972), talvez o mais importante livro de poesia que um brasileiro escreveu no século XX, como afiança Junqueira, destacando que essa reunião de poemas marca o regresso definitivo do poeta as suas origens, o seu retorno à infância mitificada na cidade de Maceió, capital do Estado de Alagoas, como se pode constatar nestes versos:

            Minha pátria é a água negra
            -- a doce água cheia de miasmas –
            dos estaleiros apodrecidos.       
            (...) Vindo das ilhas inacabadas,
            nunca aprendo a separar
            o que é da terra e o que é da água.


III
Já Assis Brasil prefere destacar a trajetória de Lêdo Ivo como franco-atirador na poesia brasileira, mostrando como seu fazer poético nunca esteve atrelado ao Modernismo da Semana de Arte Moderna de 1922, em São Paulo, ao contrário do que muitos críticos e professores, principalmente aqueles ligados à Universidade de São Paulo (USP), procuraram defender, em sua ânsia de sistematizar tendências e influências. Assis Brasil lembra que Lêdo Ivo, embora alagoano de nascimento, estudou no Colégio Carneiro Leão, no Recife, cidade em que começou o seu aprendizado poético não só com João Cabral de Melo Neto (1920-1999), mas com Willy Lewin (1908-1971) que, de uma geração anterior e dono de uma vasta biblioteca, funcionava como uma espécie de corifeu para os mais jovens que o procuravam.

Mudando-se para o Rio de Janeiro em 1943, Lêdo Ivo, ao se valer das relações pessoais que já construíra no mundo literário do Recife, foi bem recebido por Manuel Bandeira (1886-1968), Jorge de Lima, Graciliano Ramos (1892-1953), José Lins do Rego (1901-1957) e Augusto Frederico Schmidt (1906-1965), entre outros, o que lhe facilitou a tarefa de divulgar seu trabalho e, principalmente, encontrar editoras que se dispusessem a apostar num jovem poeta. É de 1945 Ode e elegia, livro que marca definitivamente o rompimento de qualquer ligação que poderia ter tido a sua produção inicial com o Modernismo inconseqüente de 1922.

À falta de melhores rótulos, a crítica literária passou a inserir Lêdo Ivo como o poeta mais representativo da Geração de 45, movimento de reação estética contra o clima demolidor e anarquista da primeira fase do Modernismo, reivindicando uma volta à disciplina e à ordem. Mas também aqui a inclusão do poeta foi um tanto forçada e a sua revelia, funcionando mais como uma forma cronológica de definir determinados poetas que apareceram na década de 1940, sem maior rigor nas preferências estéticas de cada um.

Depois de experimentar o verso livre, Lêdo Ivo voltou a algumas formas poéticas fixas, como o soneto, mas conservando uma postura extremamente livre e pessoal, cunhando assim uma poesia com características próprias em que se destacava o pleno domínio das suas técnicas e da linguagem, o que só era possível porque, além de poeta, desde o início, sempre fora um estudioso do gênero e não um mero diletante. E mais: um ensaísta de mão cheia, com 13 livros publicados, entre os quais se destaca O universo poético de Raul Pompéia (Rio de Janeiro, Academia Brasileira de Letras, 2ª ed., 1996).

IV
Muitos foram os livros de Lêdo Ivo e relacioná-los aqui seria exaustivo, até porque também publicou livros de contos, crônicas, duas autobiografias e três de literatura infanto-juvenil. Mas é de destacar que foi na década de 1980, em plena maturidade, que sua poesia se cristalizou, a partir de Mar oceano (1987), a que se seguiram Crepúsculo civil (1990), Curral de peixe (1995), O rumor da noite (2000) e os textos até então inéditos reunidos em Plenilúnio (2000). Como bem observou Ivan Junqueira, ao contrário de muitos poetas cuja produção se amesquinha na velhice, a de Lêdo Ivo cresce ainda mais, alcançando a transcêndencia inata da obra de arte em poemas em prosa ou em excertos de prosa poética espalhados por Mar oceano.

Em grande parte desses poemas, percebe-se o uso medido não só do oxímoro, um dos recursos estilísticos preferidos de Fernando Pessoa (1888-1935), e outras figuras de linguagem, como de certa nostalgia de “uma luz perdida” que remete para Camilo Pessanha (1867-1926), o que faz de Lêdo Ivo não exatamente um poeta de idéias, mas de imagens, um poeta abstrato, cerebral, essencialmente intelectual, em sua obsessão pela musicalidade do verso, como se pode constatar nas palavras que seguem:

        Sempre andei me buscando e não me achei.
        E ao pôr-do-sol, enquanto espero a vinda
        Da luz perdida de uma estrela morta,
        sinto saudade do que nunca fui,
        do que deixei de ser, do que sonhei
        e se escondeu de mim atrás da porta.


É de notar ainda que a poesia de Lêdo Ivo atravessou incólume a década de 60 sem se deixar levar pela cantilena dos concretistas de São Paulo, meros adoradores de Ezra Pound (1885-1972) e James Joyce (1882-1941), cujos versos hoje são praticamente ininteligíveis. Embora estudioso de Herman Melville (1819-1891), Nathaniel Hawthorne (1804-1864) e William Carlos Williams (1883-1973), como assinalou Assis Brasil, Lêdo Ivo manteve-se fiel aos grandes poetas da língua portuguesa. É o que se vê na intertextualidade que pratica neste poema com famosos versos de Fernando Pessoa:

        Minha pátria não é a língua portuguesa.
        Nenhuma língua é a pátria.
        Minha pátria é a terra mole e peganhenta onde nasci
        e o vento que sopra em Maceió.
        São os caranguejos que correm na lama dos mangues
        e o oceano cujas ondas continuam molhando os meus pés quando sonho. (...)


V

Para quem pensa em Lêdo Ivo só como poeta, diga-se que ele é também grande romancista, autor de cinco obras no gênero. Seu romance Ninho de cobras (1973) foi traduzido para o inglês, sob o título Snake’s Nest, e em dinamarquês, sob o título Slangeboet. É um romance de feitura inovadora, repleto das figuras de linguagem que costuma utilizar em seu fazer poético, que recupera a Maceió da década de 1930, à época do governo de Getúlio Vargas (1882-1954) que redundaria na ditadura do Estado Novo (1937-1945).

Trata-se de uma bem elaborada crítica dos regimes de força que manietaram o Brasil durante boa parte do século XX, uma denúncia do comportamento hesitante e apático da maioria da população que sempre assistiu, indiferente, ao assassinato daqueles que ousavam ir contra os poderosos do dia. E que, lido hoje pelas novas gerações, pode constituir um bom alerta para quem ainda dá ouvido a alguns nostálgicos dos regimes de força, que sempre começam pelo pretexto do combate à corrupção política e acabam num mar de sangue.

Mas não foi só o romance de Lêdo Ivo que encontrou boa receptividade em outros idiomas. Sua poesia está espalhada também pelo mundo hispânico. No México, saíram várias coletâneas de seus poemas, entre as quais La imaginaria ventana abierta, Oda al crepúsculo, Las pistas e Las islas inacabadas. Em Lima, Peru, foi editada uma antologia, Poemas, e na Espanha saiu a antologia La moneda perdida. Antologias de seus poemas já foram traduzidas para o inglês por Kerry Shawn Keys (Landsend: selected poems, Pennsylvania, Pine Press, 1998), para o holandês por August Willemsen (Poetry, Roterdã, Poetry International, 1993; Vleermuizen em blawe krabben, Sliedrecht, Wagner & Van Santen, 2000) e para o italiano por Vera Lucia de Oliveira (Illuminazioni, Salerno, Multimidia Edizioni, 2001).

Em Portugal, críticos do quilate de João Gaspar Simões (1903-1987) e, mais recentemente, Eugénio Lisboa, escreveram artigos em que destacaram a excelente qualidade da poesia de Lêdo Ivo. Gaspar Simões, inclusive, chegou a escrever que, se existisse uma Jerusalém celestial à parte destinada aos poetas, Lêdo Ivo seria um dos escolhidos, o que, praticamente, foi dito com outras palavras por Fausto Cunha, para quem o poeta “será um dos poucos que ficarão”. Por tudo isso, seria recomendável que as instituições que podem fazê-lo começassem a pensar em apresentar o nome de Lêdo Ivo à Academia Sueca. Afinal, está na hora de a Literatura Brasileira também conquistar o seu Prêmio Nobel. 
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A TRAJETÓRIA POÉTICA DE LÊDO IVO: TRANSGRESSÃO E MODERNIDADE, de Assis Brasil. Rio de Janeiro, Educam, 2004, 284 págs. E-mail: hneto@candidomendes.edu.br

POESIA COMPLETA: 1940-2004, de Lêdo Ivo, com estudo introdutório de Ivan Junqueira. Rio de Janeiro: Topbooks/Braskem, 2004, 1099 págs. E-mail: topbooks@topbooks.com.br

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Capas cartoneras

Alessandro Atanes

Fazia tempo que a Pausa não publicava uma nova galeria. Assim, ao lado, uma série de capas de exemplares de livros das editoras Cartoneras, projeto que se alastra pala América Latina e que no Brasil leva o nome de Dulcinéia Catadora. As capas são feitas de papelão comprado de catadores e pintadas pelos filhos dos catadores. A série é artesanal e cada exemplar de um mesmo livro tem capa única.



Na série de imagens, coletada pela Universidade de Wisconsin, estão Flávio Viegas Amoreira (Os contornos da serra são adeuses do oceano ao cais) e Marcelo Ariel (Me enterrem com a minha AR 15), ambos deste blog, além de nomes como Joca Reiners Terron, Manoel de Barros e Jorge Mautner.

“Compositores Brasileiros Eruditos”, um espetáculo com Marcos Canduta (violão) e Débora Gozzoli (flauta)

Canduta e Débora Márcia Costa

No espetáculo Compositores Brasileiros Eruditos, grandes nomes como Carlos Gomes, Villa-Lobos, Lorenzo Fernandez, Francisco Mignone, Alberto Nepomuceno, Cláudio Santoro e muitos outros são interpretadas pela flauta e o violão de Marcos Canduta e Débora Gozzoli, da dupla Choro de Bolso, em um repertório criado especialmente para a ocasião. O evento ocorre no Restaurante La Quiche Dorée (Av. Epitácio Pessoa, 210 E, Santos), no dia 27 (sexta-feira), às 21h. O couvert artístico custa R$ 4,50.

Canduta é violonista, guitarrista, compositor e arranjador. Foi professor no Centro Livre de Aprendizagem Musical, escola de música dirigida pelo Zimbo Trio, em São Paulo. Débora Gozzoli também é professora de flauta na Escola Henrique Oswald.

Compositores Eruditos Brasileiros

O Brasil de Heitor Villa-Lobos é também o país de Carlos Gomes, Ernesto Nazareth, Lorenzo Fernandez, Francisco Mignone, Chiquinha Gonzaga e de tantos outros importantes compositores eruditos que, com exceção do autor das Bachianas Brasileiras, estão renegados ao mais profundo esquecimento.

Em todo o mundo, compositores eruditos buscaram inspiração para suas melodias nas tradições populares de seus países. No Brasil não é diferente. De Alberto Nepomuceno a Edmundo Villani Cortez, todos beberam no folclore, nas melodias e ritmos populares do Brasil. Por outro lado, muitos compositores ditos “populares” têm em sua obra peças inspiradas no universo erudito. Egberto Gismonti e Tom Jobim são exemplos marcantes. O Duo Choro de Bolso vem mostrar um pouco dessa história, com o programa Compositores Eruditos Brasileiros.

Peças de Villa-Lobos, Lorenzo Fernandez, Francisco Mignone, Alberto Nepomuceno e muitos outros serão apresentadas em arranjos criados para o duo de violão e flauta.

Sobre o Restaurante La Quiche Dorée

O restaurante funciona a partir de terça a domingo a partir das 15h e possui convênio com estacionamento ao lado. Aceita os cartões Visa, Master e Ticket Refeição. O endereço é Avenida Epitácio Pessoa, 210E, tel. 3227-6145, Santos.

sábado, 21 de novembro de 2009

Gilberto Mendes e Flávio Viegas Amoreira no Conversa de Botequim

Alessandro Atanes

O compositor Gilberto Mendes e o escritor Flávio Viegas Amoreira são os convidados desta terça-feira (24) de mais uma edição do Conversa de Botequim, às 20 horas na pizzaria Piola (Rua Timbiras, 17, Gonzaga, Santos).

Para quem não conhece, Gilberto Mendes é um dos principais compositores brasileiros e criador do Festival Música Nova. Suas aventuras musiciais estão registradas nos livros Uma odisséia musical: dos Mares do Sul à Elegância Pop / Art Déco e Viver sua música: com Stravinsky em meus ouvidos, rumo à Avenida Nevskiy.

Flávio, um dos autores deste blog, é escritor e crítico literário. Colabora para jornais e sites de cultura em todo o Brasil e é comentarista da Rádio Litoral. Um dos maiores agitadores culturais, criou com Gilberto Mendes o Fórum Santos Cultural de resgate das tradições de vanguarda do Litoral Paulista.

Publicou Maralto (poesia, 2002), A Biblioteca Submergida (poesia, 2003), Contogramas (contos, 2004), Escorbuto, Cantos da Costa (poesia, 2005) e Edoardo, o Ele de Nós (romance, 2007), todos pela editora 7Letras, além de Os contornos da serra são adeuses do Oceano ao Cais (poemas reciolhidos, 2008), pelo projeto Dulcinéia Catadora e Sampoema (poesia, 2008), pelo Atêlie Acaia, de São Paulo. Finaliza Vinho: Verso, pelo Atêlie Cláudio Vasquez, obra acompanhada por gravuras do artista plástico Paulo Von Poser. Tem prontos ainda os livros O Vazio refletido na luz do nada, de poesia, e Santiago além de João, um ensaio sobre o cineasta João Moreira Salles.


Além das afinidades artísticas e a paixão comum pelo cinema entre os dois artistas, suas obras também travam um diálogo. A partir da obra do escritor, Mendes compôs Escorbuto e, mais recentemente, Sinfonia de navios andantes, baseado num artigo de Flávio, apresentada ao público neste ano no Festival de Inverno de Campos do Jordão e agora em setembro, em Santos e em São Paulo, no Festival de Música Nova. Abaixo um trecho da peça:

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Dez anos sem Plínio Marcos

Marcelo Ariel

A ausência de um contestador como Plínio Marcos é mais do que lamentável, estivesse vivo certamente seria capaz de escrever uma peça digna sobre os sem-terra, o fascismo light dos partidos populistas e a mentira do "crescimento econômico", é lamentável também que uma imprensa composta por orgãos privados que prestam o serviço de assessoria para os governos e não consegue ser a tribuna das discussões dos problemas humanos do nosso tempo, uma imprensa que se omite de criticar os poderosos, provinciana e que vive do "cortar e colar", tenha a cara de pau de dedicar uma página inteira para uma matéria sobre os dez anos da morte do Plínio Marcos, no fundo a hipocrisia reina nas redações (e não apenas nos gabinetes do poder).

Porque esta mesma imprensa negou espaço para o Plínio quando ele era vivo e se ofereceu para escrever nela e se não me engano apenas uma revista (a Caros Amigos) e um jornal (O Jornal da Orla) ofereceram espaço para o Plínio. O que vemos hoje é essa impresa chapa-branca cinicamente falando na importância da obra de um artista que quando estava vivo e atuante, ela fazia questão de ignorar, pautando apenas a estréia de suas peças na cidade sem dar voz ao seu pensamento urgente e contestatório através da publicação de seus artigos e crônicas. Plínio Marcos como Nélson Rodrigues era uma flor da obsessão pela vida cotidiana ou seja pela vida no entorno dos gabinetes e das redações e se estivessem vivos hoje seriam os primeiros a condenar a situação do jornalismo, principalmente de um jornalismo cultural feito "nas coxas", provinciano, preconceituoso, obscurantista e burro como esse praticado na Região do Litoral Paulista e no Brasil.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Ângela Castelo Branco, fenomenologia poética


Flávio Viegas Amoreira, publicado originalmente em Cronópios

“Existindo já era a forma de ser aquilo que queria,
não esforçando a feitura de um outro mais bem
acabado, sabia que mesmo sem se mover já
estava sendo.”


Esse primeiro poema de Orações foi “overture” para um universo que vem me fascinando pela hermenêutica experimentada quando do percurso empreendido em suas sendas: a obra poética de Ângela Castelo Branco, em livros e em blog. Quando caíram-me as mãos (pois assim foi desavisado que encetei a marchar nessa atmosfera lírico-ontológica), seus textos poéticos em estrofes contidas e epigramáticas provocaram um digressão a autores que vivenciaram a mesma “exacerbação dos sentidos” que posso enfeixar no título que a poeta dá ao seu site: a liturgia artística do “Sagrado”. Logo recorri ao filólogo e crítico vienense Leo Spitzer citando o poeta americano Karl Shapiro em digressão ao seu estudo sobre John Donne e San Juan de la Cruz, ancestrais literários de minha mirada sobre a Ângela: “... contesto o princípio subjacente à ‘explication de texte’. Um poema não deveria servir como tema de estudos lingüísticos, semânticos ou psicológicos. Poesia não é linguagem, mas uma linguagem ‘sui generis’, que só pode ser entendida, parafraseada ou traduzida como poesia. Uma mesma palavra que figure em um trecho de prosa ou em um verso transforma-se em duas palavras diferentes, nem mesmo semelhantes, exceto em aparência. Eu preferia designar a palavra da poesia como ‘não-palavra’... um poema é uma construção de ‘não-palavras’ que, tomando distância do sentido, alcançam por meio da prosódia um sentido-além-do-sentido. Não se sabe qual é o fim de um poema”.


“No mergulho não há para onde
Acordei pensando em um poema que irá
se estender até o final dos meus dias”


Com Spitzer, pondero que o conceito de “não-palavras” reduz muito o arco de possibilidades da Poética: o ritmo e as associações não permitem essa redução apenas ao encadeamento de ‘significantes’. Diz o mestre austríaco com o que concordo: “Em vez de dizer que a poesia consiste em ‘não-palavras’ que, tomando distância do sentido, alcançam por meio da prosódia um ‘sentido-além-do-sentido’, eu sugeriria que ela consiste em ‘palavras’, cujo sentido é preservado e que, pela magia do labor prosódico do poeta, alcançam um ‘sentido-além-do-sentido’”. Pela maturação, por aquilo que Francis Ponge chamava “saturação da literatura”, procurando uma resposta ao “mutismo dos objetos”, diria que Ângela deixa exposta a tessitura e os “andaimes” à vista mesmo elaborando virtuosisticamente poderosas metáforas e jogos de linguagem: os paradoxos, os “oxímoros” não perdem sua grandeza conteudal pela evocação continuada e a quase “prosificação” com melopéia intrínseca: é poeta do entrecho com escoras fincadas numa melodia muito profunda: reflete pela sensação jamais irredutível ao texto: é “assíndeto”, não reproduz mimeticamente uma dialética previsível. Insisto: um poética que não se fecha.... Muito presente é o elemento “confessional”, mas com viés catártico sutilíssimo: “kathársis” = purgação das emoções no espectador devida à sua identificação com o objeto da representação. Através das circunstâncias e elementos dados pelo mundo em sua radical imanência, a poeta dispõem todo questionamento ascendente nos propondo “êxtasiamento” sem perda do reflexivo calculado em seu desdobramento.


"Pois somente quando o amor te olha


Sabemos o quão pesados fomos"



"Não basta aceitar


É preciso acontecer


o sim"


Dum estoicismo fragmentado, quando releio esses aforismos que vão muito além de se encerrarem no utilitário epicurista de aforismos, remeto à Emily Dickinson a partir de seus poemas paradigmáticos da concisão supra-eloquente e René Char, na clarificação heideggeriana do que Hilda Hilst gostava de chamar “fenomenologia poética”. “A fenomenologia é, então, uma ‘psiconosía’ ou exame das ‘idéias’ tal como de fato surgem e desaparecem no decorrer dos processos mentais” – como define Ferrater Mora. Em seus poemas carregados de intuição “logopaica”, ela contextualiza a presentificação e retém do Devir pulsante o sumo da duração: desde o “phatos” amoroso ao “revelatório” que a palavra precisa alinhava dum mar de memória:


“Não me olhes com os olhos de ontem. Não será possível nenhuma ponte entre nós. Olhe-me hoje, façamos um vocabulário do sol claro na janela...”


Seu ofício na escritura militante, cotidiana, é uma forma de sagrar sem ortodoxias o que se “fossilizaria” pela conceituação “divinatória” do que seja “Sagrado”. Ela nos revela o sagrado na “eminência da imanência mesma...”. Sua poética não busca deliberadamente a originalidade estilística: instaura o humano com toda seiva ainda germinada de ancestralidade e saber arcano revisitado com olhos de permanência e atemporalidade necessárias para uma intencionalidade da resistência. Aqui nesse Cronópios e em revistas virtuais importantes, Ângela representa um “cânone” renovado pela insistência no conteúdo cultivado, no questionamento mesmo do próprio êxtase poético e da metalinguagem exposta para argüir a persistência e validade da Literatura em tempos de barbárie e niilismo não-propositivo: pedagogia incisivamente inscrita no Verbo. Volto a René Char para distinguir essa poeta pela intersecção tão bem medida entre pensamento e melodia:



“A poesia é este fruto, maduro, que apertamos na mão com alegria, no mesmo instante em que ela surge com o futuro incerto, dentro do cálice , na haste gelada da flor”.


É toda Arte que seus textos tangenciam e impregnam numa intertextualidade digna de Schelegel: “Naquilo que chamamos de filosofia de Arte costuma faltar um dos dois: a filosofia ou a arte”. Sua obra em construção incessante traduz essa “filosofia da arte” que só a Alta Literatura, em especial a Poesia, pode fazer convergir num cadinho mais-que-perfeito pela palavra justa: os teóricos de arte em seus "castelinhos teleológicos" perdem de longe nas definições para os poetas dessa estirpe , enfatizo: logopaica segundo Pound.



Ainda segundo Schlegel: “Em todo poema é preciso que tudo seja intenção e tudo instinto. Por isso ele se torna ideal”. Um poema recente da poeta revela a literata, aquela que “quando sente, pensa”.


"é a manhã que me sopra


e preenche a fala dos homens


que crêem nas páginas em branco


reza por quem quiseres


e aceita que a folha


vai com o vento,


que arde no foto


e que descansa na estante,


só amanhece no rosto que move a escrita"


Quero nesse “ensaio crítico” revelar pontos altos da obra em franco processo de Ângela, e para isso vou até um dos meus avatares: Auden. Em sua obra-prima de teoria literária livre das amarras acadêmicas: “A mão do artista”, ele nos traz alguns “toques” que servem com maestria para “procurar entender sentido” essa poeta paulistana e seus contemporâneos aqui brilhando nesse Cronópios, portal da Novíssima Literatura Brasileira.


"Alguns escritores confundem autenticidade, que deve ser constantemente perseguida, com originalidade, que jamais deveria preocupá-los".


Aqui exponho a despreocupação grandiosa, “desencanada” de Ângela Castelo Branco com “arroubos vanguardosos e sectarismos conceituais”: ela compõe pelo mesmo "sensacionismo" de Pessoa , agora com um trato urbaníssimo, "cosmopolitano" como Sampa pede e universaliza. Sigamos mestre Auden para atinar com propriedade de quem admira por sentir sinestesicamente essa poética da sacralidade advinda do fulcro, do âmago:



“Cada obra de um escritor é um primeiro passo, mas terá sido um passo em falso a menos que seja, ao mesmo tempo, um passo a frente (mesmo que o escritor não se dê conta disso na ocasião). Um indício de que jovem poeta tem algum talento verdadeiro é o interesse maior em brincar com as palavras do que em dizer coisas originais. Poesia não é magia. A poesia, como qualquer outra arte, possui um propósito oculto, não-expresso, ou seja, busca desencantar e desintoxicar”. Aí é de novo o “desvelamento heideggeriano” notável em René Char e Ângela Castelo Branco, a beatitude da atmosfera, o “sustenido” duma harmonia das esferas, um “adaggio” que se infinitiza com perícia da observadora do momento que escorre: apreendendo o fluxo liberto, ainda liberado no casulo do poema “perfazendo-se” no “espelhamento” do interpretante.



“fim de tarde nos meus olhos


as cavalarias e os homens de fé


passam por aqui


- espada em riste


bandeiras eloqüentes


o menino santo olha a cena


salta do parapeito


e me devolve a lucidez


é hora de aceitar o grande desígnio


folhear o livro com as mãos ungidas


do fresco aroma


da pele que sustenta o mar em revolta.”


Algo que me toca profundamente em sua obra é revelador dum bom sintoma das novíssimas gerações de escritores: o interesse pela tradição sem abdicar da renovação de formas e novas abordagens literárias. Leitora de Emily Dickinson, Mário Faustino, Anna Akmáthova, Virginia Woolf, apreciadora do cinema de Arte e profunda conhecedora de artes plásticas, Ângela me provoca resgate desse Auden para mim tão precioso: “Um jovem ou uma jovem que visa à erudição também tem razões para estudar porque tem uma noção razoável daquilo que deseja saber. Mas não há nada que um futuro poeta tenha certeza de que precisa saber”. Mesmo na “convicção cética ou líquida” da bagagem necessária para alavancar a intuição, a sensorialidade, a percepção aguda para um poeta, – o bardo não pode contar com instrumentos precisos que o habilitem: impossível a transmissão de talento: “desespero não se ensina”: o que nos move na criação de sua urgência em nossa existência, é a essencialidade compartilhada: a importância da interlocução, a generosidade “acumpliciada” de delírio sóbrio de luz que nós escritores partilhamos.


Gosto da frase certeira de Robert Graves: “Os poetas nascem, não são feitos”. Ao re-visitar com olhos de exegeta esses poemas de Ângela, vejo que essa é a interpretação de sua boa “condenação”, o bom fado de ser visceralmente poeta, fundamentalmente escritora. Ao mais amadurecente escritor, é o que reluz horizonte denominado porvir. Vendo a jovem com seu lirismo denso, observo quanto tenho que ler ainda dela própria que virá: tenho nostalgias de futuro e ansiedades pelo arcano: ler Ângela, Sóror Juana Inês de la Cruz , Santa Teresa D´Avila e nosso farol mais próximo que ainda retine: Hilda Hilst. Num inverno de 1995, enquanto fazia Hilda rememorar sua infância em minha terra mítica: Santos, guardei uma pérola desse Oceano que nos protege real ou turbilhonando no sangue: “Literatura, Flávio, é como aquela prova de bastão em revezamento: somos guardiões de uma chama que não se apaga: é intuição dum mesmo fulgor que muda de mãos, mas segue a disposição: você recebe a poesia e segue. Recebe quando pensa que ela te toma”. Assim sigo crendo no silêncio que irrompe fazendo-se corpo pela palavra que esboça um discernimento plausível do Absurdo... Não penso essa poesia, ela me foi “sentida” e por esse toque acabei por compreender sua narrativa atávica e perene. Poesia contando-se: garrafas atiradas a um insulado que vislumbra ser um ex-náufrago. O caminho de dentro é o poema móvel: teus poemas, Ângela : “tem a moldura que a literatura deseja vestir”.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Um diretor sobre o Terceiro Muuun-do

Itamar Alves

Vigarista, mulherengo, sem-vergonha e vagabundo. Taí um Brasil que ousou por a cabeça para fora nas telas dos anos 60 e tomou tanta pedrada, fez tanta feirante gritar, que se arrastou de volta para o buraco. Mas por lá ficou, quem passa por perto toma unhada no calcanhar.

Não, não estamos falando dos personagens das chanchadas. Esses, na maioria, eram boa gente, eram gente boa. O ziriguidum mesmo está nos filmes de Rogério Sganzerla, elo perdido entre Zé do Caixão, Noel Rosa e aquele menino, o Godard. “Macumbeiro do caralho!” Cinema Sganzerla é, de bate-pronto, uma sucessão de enquadramentos (olha a antítese!) que não se fecham, frases radiofônicas para pessoas que gostam de gritar, uma putaria absolutamente romântica (o outro “romântico”) e um amor desbregado por uma arte e um País que não davam o menor mole. Daí, o jeito era partir pra porrada.

“Eu não sou tarada!” Cacete, o negócio era tratar tudo como um solo do Ornette Coleman ou do Hendrix: vai-se errar até dizer chega, mas o sangue vai correr. Então, a pergunta: qual era a paleta do moçoilo?

Mais simples, impossível: um bandidinho pé-de-chinelo que toma uns saquaremas da polícia de São Paulo; uma putafaveladaoxigenada que tem um irmão incestuoso e pederasta vagueiam por Copacabana; uma besta fera loira casada com um gordo nazi e que curte aterrorizar homem (e deixa claro: “não gosto de gente!”); e, no talvez maior de seus filmes, o Aranha, que reuniu o que de pior existe no macho Brazillis. Logo, mora em nossos corações.

E era só isso. Pra começar, claro. Porque o que contava mesmo era ver como esses fiapos iam serpentear pela tela costurando passadopresentefuturo de uma sociedade que tinha enricado rápido, chegado na beira da piscina da mansão de fio dental e Ray-ban e não sabia como nadar. E com a pobralhada fazendo fiu-fiu lá do portão. O jeito, com o Rogério, era acabar com o estoque de coquetéis e mijar na água, não sem antes deixar clara a diferença entre cultura e estrutura.

Seus personagens não perdiam tempo com fossa, deus e o “eu-interior”. Eles tavam sempre com fome, porra! O corte era na carne, a banda sonora pedia arrego de meia em meia hora e parecia que o Terceiro Mundo realmente ia explodir. Se havia um norte que guiasse a zona toda (não tão zona assim...), era esse: “desse jeito, não dá. Deixa te mostrar onde está a merda...”.

E, óbvio, havia o cinema.

Em Sem essa Aranha, a composição é fabulosa: seis longas sequências, com a câmera executando travellings emacumbados que deixavam os atores irem e virem como a peste: todo mundo tenso, todo mundo gritando (de fome! de Fome!). É quase filme de terror (o do Conrad), mas há toda uma tristezaeuforia perpassando a tela, que culmina com uma ode de amor louco de Rogério à Helena Ignez, esposa e atriz, e uma das mais incríveis imagens do cinema brasileiro: Luiz Gonzaga e trio tocando e passeando em um matagal mafuá.

O que fica é: Cadê? Cadê os filmes, os livros e as discussões? Tá bom, estão todas em algumas salas de aula, o Canal Brasil tem dado colher-de-chá e até que tem livro. Mas, assim só não vai, né? Indústria de cinema tem que discutir tudo. Discutir, não, vamos falar adulto: Vender, porra, e sem medo, que indústria serve é prá isso. Não dá prá ficar nessa discussão só do que é rentável ou arte, tudo é comercializável. Ou não se vende DVD do Abel Gance lá fora? Menos que o Homem-Aranha, mas vende. A família Gance deve embolsar um troco de vez em quando, é ou não é?