Fragmentos de Desmemórias, poesia de Diniz Gonçalves Júnior
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Capa de Decalques (2009), primeiro livro do poeta, leia resenha aqui |
I
a chuva distorcia imagem do vídeo que era precária lentidão de um dia vazio na ana costa depois da faixa divisória não tinha registro magnético neblineava vista ilhada da cabine telefônica não era sorveteria desabitada nem o caminho para subir até o mirante depois da ladeira da ilha porchat
II
panorama de luzes formadas no asfalto atrito de alguma estação fm depois das duas com direito a voz cavernosa e pedidos ao cvv nem os detritos que lotavam o pára-brisa escondiam a fisionomia do tédio engessado da falta de sentido daquele feriado mas apropriado seria o chá com fantasmas de quintana servido à moda da casa
III
catava pedaços de papel no chão formando filigranas de bonsais que construía mentalmente nenhum aviãozinho quase grafite que esboçasse vôo as pastilhas do edifício evaporavam histórias das folhinhas guardadas na véspera .
IV
dia de lua em santos dois aquários próximos mas tão impossíveis na claustrofobia da ausência rua artur assis 54 o quadro do baile de máscaras apartamento final do corredor à esquerda.
V
uma outra vida amigo os velhos discos da loja são miniaturas engarrafadas limiares de um tempo que corre paralelo memória de mochilas e perfume pathchouly não há notícias de lá só as delícias da casa azul gosto de infância inventada perto do atrito do trem estação final mogi .
VI
fechou meus olhos na saída da loft não sabia seu nome era leve como aquelas bolhas de sabão que aparecem no mês de janeiro efêmeras cores de mil novecentos e oitenta e pouco
VII
nada naquela noite fria meia dúzia de gaiatos pingados olhando pra praça um cheiro enjoado de damas da noite uma garrafa quebrada duas ou três garotas espiando da janela.
VIII
a cidade escondia cicatrizes passagens secretas para shangri-la bilhetes de destinos imprevistos ruído de violino desafinado um cheiro de jornais molhados retratos de máquinas descartáveis uma menina levando flores de plástico
IX
desenhos de navios na areia meninas cítricas na arrebentação do cais insolação marítima planos evaporados no posto 5
X
um frasco de sol discos de vinil na prateleira do eldorado papel de parede colado ao contrário dias guardados nas listras do sofá-cama .
XI
no gonzaga teias de galerias povoam a noite varal de vagalumes iluminando os letreiros.
XII
recolhia as roupas como se habitasse um museu de mímicos e a memória fosse um ato mecânico seqüência de slides apagando- se distraidamente .
XIII
avistei altiplanos na canção trastevere a cidade é moderna e traduz sua geometria em pequenas maquetes de ar enquanto as serpentinas reciclam as folias de outros carnavais as marchinhas nunca ouviram trastevere e cismam em romper a noite espalhando lamentos em alta freqüência
XIV
em tempos diversos voltas ao redor da estátua de vicente de carvalho se fosse hoje não seria bronze mas artifício holograma nada sólido como uma medula de pedra .
XV
entre galerias misturando os nomes das lojas como se fossem quebra-cabeças de pernas pro ar
XVI
fachadas anônimas cores extintas no enxame de ruas centro velho ilhado nas margens das placas de trânsito
XVII
era o clube sírio e os cheiros de serpentina na fila pernas e máscaras euforia cílios cenário embalsamado
XVIII
cada ano um mapa inventa letra lembrança lugares contar os números das cartelas acumuladas
XIX
três horas o caminho em breve será memória a fala hesita flores impossíveis calam a madrugada
XX
galeria borba gato e o descompromisso dos caminhos talvez uma pintura desbotada pelos passos discos vitrines de passagem .
XXI
esse jardim improvável mínimo istmo beirando o concreto retrato dos silos onde deitei a memória .
XXII
não foi possível apesar do sorriso e do caminho que passa sonolento pelo parque antigo até chegar à radial leste .
XXIII
toda rua tem memória letras embaralhadas no retrovisor caminhos habituais se tornam raros mesmo que permaneçam como certos cheiros imagens sons do asfalto
XXIV
no rádio tocava all for reason e o guarujá indicava possibilidades tantos olhares na beira do mar e a noite refletida na arquitetura veloz dos carros e nada atrapalhava o dolce far niente o ritmo lento das pernas das meninas atravessando o tempo como quem inaugura monumentos de vento ao passar .
XXV
menina no ponto de ônibus ajeita tiara círculo com luzes precárias anuncia loja de materiais elétricos restaurante árabe promoções em letras gigantes caminho setas para centro .
XXVI
a cidade pausa movimentos natalinos vermelho repetido fulgor de luzes algo fora do bom tom slow motion das faces apressadas risonhas como bonecos com data de validade
XXVII
verão tímido cidade coberta pela chuva calçadas vazias na paulista cinema feliz natal imagens claustrofóbicas inundam a retina escadas galeria estranha a volta subterrânea olhares contam as estações
XXVIII
banzo de janeiro ar salgado conserva lembranças de verões diversos passos rápidos atravesso ruas canais dissolvidos no sol as casas passam numa monotonia de cores claras o relógio da avenida anuncia a falta de pressa das horas
XIX
os objetos da casa minérios da memória o ano que não volta os risos e passos o barulho dos carros o jardim mínimo os porta- retratos guardar as palavras a alegria o movimento da rua o cheiro de hortelã o baú que não está mais lá o espaço aventado o muro e a cor amarela que imita o sol
XXX
paranapiacaba cabanas fraturam a serrania nervos de ferro dos comboios ferrorama em tamanho natural dos campos de charles miller aos trens que rangem longe das gerais
XXXI
a memória é sílaba de pássaros canto que recolhe cápsulas de asfalto relicário de ruas interditadas arame das águas inunda o meio-fio
XXXII
que a chuva lave aquilo que vela fotos reveladas nos silos de chumbo depois da quarta camada de areia desaparece o traço do navio resta a lembrança da imagem que insiste em refazer as margens dos dias expulsos do calendário
XXXIII
os vidros de areia hibernam nas prateleiras museu de pesca de santo praias próximas e distantes brancas ou opacas protegidas do tempo que faz lá fora já foram castelos e esconderam concha arranharam os olhos nas brincadeiras de infância refletiram navios nas noites brancas guardaram os passos apagados da memória .
XXXIV
socorro rumo grajaú calor a pino avenida teotônio vilela centro comercial muita gente viro à direita rua dumont passeio monza do luis balsa beira da billings ilha do bororé casas vendendo peixe obra gigante cimento do rodoanel volta almoço caseiro dona jandira seu santório trajes elegantes para as bodas de fon e soraya interlagos sol interdita ameaça de chuva padrinhos capo alexandre vivian veludo vermelho edgar terno e tênis presente daniele quebra-nozes fotos padre oriental destino natal dias solares
XXXV
fuga da chuva pôsteres de cinema depois de strombolli verão violento respira na galeria
XXXVI
no corredor o vidro esquadrinha mar regata sol telefones nas cabines margem areia escotilha do cinema de arte que parece um submarino encalhado no calçadão
XXXVII
O globo colorido reflete as luzes dos piratas de plástico bônus reinicie a partida no átimo a ficha engole segundos outra paisagem apache tece recordes da vida ao limite tilt
XXXVIII
vento morno ondula os desenhos do calçadão silhueta de navios de partida a noite cai no cais de mim
XIL
noite o chuveiro silencia estranha escultura no canteiro xadrez de concreto no limite da areia antídoto do sol dorme de costas para o mar
XL
canal vazio notas de desembarque aviso de chuva o caminho retorna nos mapas da ausência
XLI
pátio azul silêncio sólido solene madeira colégio paz rezas irmã inês e o tempo fraturado fora do calendário
XLII
linhas de uma rua embaralham números datas arrancadas da memória na placa fonseca da costa mais um gol antes do carro passar e as
matinês distantes da up & down encontro eco de portas e largos corredores na beira da piscina do ybiá o sol derrete os sorvetes numa esquina da enseada que não volta risadas no salão do prédio miragem nome tinge camiseta vermelha improvisos odes telas de néon desbotadas josé menino o prédio adormece seu sono de concha seus segredos guardados na margem da areia .
XLII
balneário flórida bicicleta enferruja no quarto do fundo conchas na moldura da churrasqueira quintal quarto quente concreto das prateleiras o ventilador de ferro que ainda funciona rua das camélias a chuva precipita no asfalto quase vazio equação do sono no ócio da tarde o mar desolado rebenta lento e os quiosques fincados no calçadão sentido mongaguá ou boqueirão soletrando paisagens habituais e as bugigangas coloridas das feirinhas precárias talvez um chaveiro ou nome entalhado num totem de madeira
lindo!
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