quarta-feira, 2 de maio de 2018

Foto: Márcia Costa

Por Jean Pierre Chauvin 

Não se decide ser de esquerda. Torna-se. E por que ser de esquerda pressupõe autocrítica, significa transformação constante. Seria um contrassenso cultivar pensamentos como se fossem dogmas. Para isso há os fanáticos (não só os religiosos) e aqueles que acreditam em pseudomitos, inclusive na falácia meritocrática.

Digo o óbvio, sei bem, mas porque é preciso rebater com inteligência (e paciência) os petardos verbais (e mesmo físicos) disparados por quem se identifica com qualquer outra coisa, menos com o outro ser humano. O sujeito é capaz de gastar centenas de reais, ao “adotar” um pet. Daí, caminha três passos, feliz da vida com sua nova propriedade peluda, e topa com o bicho humano. Faz esgares de quem sente nojo, raiva, ódio de classe. O conceito é antigo? Significa que perdeu validade?

Não há como negar. Uma parcela considerável da classe média teme ser confundida com o pobre. Não será por acaso que as companhias aéreas têm reservado espaços cada vez maiores da aeronave (aquele ônibus que voa) para clientes ditos “preferenciais”. 

As condições para isso? Dispor de determinado cartão; ou investir uma pequena quantia para assegurar maior espaço (que, antes, era direito de todos os passageiros, mesmo na classe dita “econômica”). 

Mas, afinal, teremos o poder de, sozinhos, revidar os ataques levianos da direita? A tarefa não é fácil, mas ela parte do pressuposto de que precisamos propor outra narrativa, ainda que em grupos restritos. O silêncio temeroso do ser de esquerda (ou simpatizar com ela) tem facilitado a regurgitação de seres excludentes. Eles sempre existiram, claro esteja; a questão é que agora não se disfarçam mais. Estão a ondular o esgoto, a remexer tampas de bueiro. 

Se não, repare. Noutro dia, retirando ingresso de cortesia para assistir a um documentário, um grupo de senhoras “discutia” política. Eis que uma delas diz: “Não gosto de nenhum deles. FHC, Lula (…) agora, na Dilma, eu escarro na cara dela!”. Belo palavreado para alguém que se considera acima da raspa do coco, não?

Uma semana depois. No domingo seguinte à prisão do ex-Presidente Luís Inácio Lula da Silva, estava na padaria mais próxima de casa. Um senhor, esparramado em dois bancos do estabelecimento, com seu jornal popular, disparou: “não aguento mais ver a cara do Lula. Que nojo!”
Reparou? 
Não? 
Tento explicar. 

Nem a distinta senhora – que estava retirando ingressos gratuitos, no cinema –; nem o senhor – que ocupava maior espaço que o necessário – estavam argumentando; mas, simplesmente destilando seu ódio, possivelmente alimentado havia décadas por seus familiares e cultivados pelos “grandes” meios de comunicação. Não será apenas coincidência o fato de ambos se referirem à “cara” de Dilma e Lula.

A primeira falácia dos que se dizem de direita está em dizer que a esquerda vive no passado. Que  seríamos saudosistas de Friedrich Engels e Karl Marx – coisa datada (imaginem! De meados do século XIX...). Ora, ora, o que dizer de Adam Smith, que é de muito antes, mas que ainda serve como referencial teórico etc? Futuro sem fundamento tem futuro?

Vá lá, admitamos por dois segundos, esse poderoso lugar-comum (e não argumento) da direita. Quem, quando e como define que pensamentos e ações perderam importância? Que lastro tem o sujeito que nunca leu o que tanto “critica” de orelhada?

Sabe aquela criatura que ficou tão sensibilizada diante do cachorrinho? Terá cogitado que parte da sua generosidade não diz respeito ao animalzinho? Que o seu desejo maior seja ter uma companhia dócil, bela, adestrada, vacinada (ocorreu-me que isso lembra a afirmação infeliz daquele governante ao se referir à sua consorte, retirando a oportunidade de a moça se manifestar), que passará a maior parte do dia sem ver o novo “dono”, mas o esperará fielmente à beira da porta, quando voltar? 

Eles, os “homens de bem” do “livre”-mercado, dizem que não têm “bandido de estimação”. No entanto, calam-se quando convém; tampouco dispensam o “seu” cãozinho lindo; nem hesitam em aceitar o juiz, transformado em super-herói pelo senso comum, a falar “inglês” macarrônico, proveniente do quintal latino-americano.

O segundo pseudoargumento dos que se dizem contra a esquerda envolve a noção de espaço. Gente dessa estirpe julga ter primazia sobre os outros, seus ímpares, em todos os ambientes que frequenta. Vocifera contra os supostos maus modos do “pobre” que pegou o “seu” lugar no avião. Isso não impede que o mesmo rei “invada” o espaço “preferencial” do mesmo pobre, quando lhe convém. Repare: o problema não está em dividir espaços comuns, mas no “erro” do pobre em acreditar que ele merece ser tratado do mesmo modo que o cliente do cartão ouro, safira ou diamante. Como reaver minha identidade, se não for pela diferenciação no tratamento? Certamente chegar um minuto antes no avião concederá poderes mágicos ao cliente de plástico.

O terceiro pseudoargumento dos que negam a inclusão de mais gente é que eles (os meritocratas) se acham melhores que os demais. Lugares-comuns como “fiz por merecer”, ou “trabalhei duro para estar aqui”, ou aquele que o apresentador do SBT utilizou recentemente (numa disputa contra o Zé Celso, do Teatro Oficina) – “não tenho culpa de ser rico” – são todos facilmente desmontáveis. 

Se é para falar em “meritocracia” (termo criado por um romance paródico de 1958), qual a vantagem em chegar “na frente”, considerando que a maioria dos seres que o cercam não teve tais oportunidades? 

Trabalhar bastante é coisa de gente melhor? Por acaso, pobre não trabalha duro? Preste atenção: cargos de liderança são ocupados por quem mais se esforça? Ou por quem aprendeu a arte de mandar e delegar tarefas, sob a proteção de pessoas-chave na hierarquia? 

Creio que ninguém xinga o proprietário de bens por ser rico ou por não considerar os outros, em sua conta tacanha e personalista. A “responsabilidade” não está em ter mais; tampouco a “culpa” está em perder ou ter menos. Aí já estamos no terreno da desfaçatez. 

Ao desviar a questão para o binarismo da sorte ou azar (mérito ou culpa são seus equivalentes), o sujeito que julga dispor de méritos e qualidades, que o diferenciam do maior número possível de loosers, não atenta para truísmos ainda maiores: qual o mérito e o privilégio em viver num território politicamente neocolonial e economicamente entreguista? 

Qual a vantagem efetiva em ter mais que noventa por cento da população? A quimera de ser uma espécie de megaindivíduo, que não supõe se confundir com a opinião da maioria, a roupa ou as ações de ninguém é tão vaga quanto se satisfazer com o descolamento crescente em meio ao que entende por “povo”. 

Se você não pertence ao povo, por acaso, é alienígena? 

Não se decide, feito equação, ser de esquerda. Aprimora-se o que ainda resta em nós de solidariedade. Haveria que se fazer a pergunta fundamental: importar-se com o outro será concessão? Ou capacidade de enxergar para além da novíssima pulseira que acelera o seu débito com o banco? Tsc, tsc. 

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