sexta-feira, 7 de julho de 2017






Por Adriane Garcia


Estive por uma semana lendo o romance DEC[AD]ÊNCIA, de Manoel Herzog (Ed. Patuá, 2016). O que quer dizer que estive por uma semana rindo muitíssimo e assombrando-me diversas vezes. Como falamos aqui em Minas (eu me repetia a cada capítulo): “Tem cabimento?”

Dec[ad]ência conta a história de Sérgio, um psicólogo com fortíssimo e irreparável complexo de Édipo, que se envolve com uma multidão de mulheres, entre elas, uma mulher mais velha, B., também psicóloga, vizinha de consultório. Durante o conturbado romance (que era para ser apenas uma transa), o leitor terá a chance de conhecer este protagonista: oportunista, cínico, egoísta, desonesto, machista, homofóbico (quiçá gay enrustido), agressor de mulheres, palestrante motivacional no âmbito da auto-ajuda, e vítima de uma gravíssima prisão de ventre, entre outras revelações. Como rir disso? É aí que entra a linguagem.

A narrativa é construída supostamente por um ghost-writer, GW. Porém, há uma briga constante entre o protagonista e o “escritor” para tomar as rédeas do livro. Com uma falta de talento confessa para a escrita e tendo lido pouquíssima literatura, por odiá-la, Sérgio é obrigado a contratar GW, “um advogado de Santos que tinha um cacoete machadiano odioso”. Nesta brincadeira de chamar o leitor, constantemente, aos mecanismos da feitura do livro, Manoel Herzog (GW? Sérgio?) consegue nos imbricar no seu jogo. Mas essa é apenas uma das maneiras de Herzog nos fazer rir.

Em Dec[ad]ência, o deboche é a marca constante da forma. Herzog debocha dos próprios termos, do uso de parênteses, mesóclises (ah, estamos fartos de mesóclises!), aliterações, jogos de palavras. Ao fazer isso, desarma o leitor para o modelo em que o livro é escrito, habilmente, coloca-o de modo natural na leitura, como se fosse contemporâneo escrever à moda antiga, por exemplo, usando verbos no pretérito mais que perfeito.

Poderia um desavisado entender que falo de uma comédia, mas, para além da forma, no tema e seu tratamento, na construção de seus personagens, Manoel Herzog traz uma grande tragédia. Seu humor, comicidade e ironia muitas vezes alcançam o grotesco. É o humor que violenta, o humor ligado à crueldade, o “humordestruição” como vivência irrestrita da crueldade do qual falou Artaud. E é o humor revelação: aquele que me coloca (ridente), diante do objeto (risível) e me faz perguntar: qual a minha relação com isto de que rio?

A piada, em Dec[ad]ência é a própria vida e sua precariedade. É o indivíduo, a doença e a morte, é o país, é o cidadão de bem, é todo o sistema fascista germinado e em pleno crescimento entre nós. Como quem apenas conta uma piada (truque de bobos da corte para que a verdade fosse dita sem que suas cabeças fossem cortadas), Herzog denuncia o homem que sabe usar o sistema, que faz sucesso a qualquer custo, que não se importa com absolutamente nada para além do seu próprio umbigo e que por detrás de insuspeitada decência, desce, decai. Como quem apenas conta uma história centrada num indivíduo, Herzog denuncia a pequena e privilegiada parcela brasileira da população que se incomoda que aeroportos passem a abrigar gente que jamais deveria ter saído das rodoviárias.
De Pirandello, em O humorismo, a afirmação de que “o humor não reconhece heróis; diverte-se em desmantelar, em decompor mesmo quando não seja isto coisa agradável”. Vamos rindo de um homem e de suas vítimas, do que nos conta e de como nos conta, Herzog, sobre seu anti-herói, aos poucos caminhando para a fatalidade, não sem antes fazer uma incursão gananciosa pelo mercado da fé, fartamente representado pelas igrejas neopentecostais brasileiras. Os de estômago muito sensível talvez devam pegar o livro bem avisados, também os do policiamento da linguagem, os preocupados com a vigilância do politicamente correto em literatura: Herzog não alivia, faz tudo pelo seu personagem. 

Riso para a reflexão e o reconhecimento. Empreitada corajosa para leitores dispostos ao susto. Recomendo muitíssimo. E “fiquem tranquilos: nenhum humorista atira para matar” (Millôr).

A antessala do consultório de Beatriz ostentava um bigodudo autorretrato de Frida Carlos, pintado não sei por quem. Por que cazzo venho a me lembrar daquele autorretrato de mme. Carlos, afinal? Óbvio que por força de uma livre associação, um conceito tão corriqueiro em psicologia corporativa, focar é essencial pra gente poder ter mais qualidade de vida, segundo o escólio de Theodore Adorno, atravessado pela hermenêutica de Lair Ribeiro. Eu confesso que sempre nutri uma antipatia gratuita por Frida Carlos, essa chatíssima pintora da modinha que não fez outra coisa na vida que se autopintar a si mesma e reclamar de sua infertilidade e alimentar a loucura de uma legião de sua infertilidade e alimentar a loucura de uma legião de doidas mal-amadas. Beatriz a idolatrava, como se pode concluir. O bigode de Frida a mim parecia melhor aplicado no rosto angelical de uma outra Beatriz, Beatriz Preciado, grande psicóloga espanhola proprietária de um buço e uma teoria invejáveis.
A minha antipatia por Frida se fez mais acentuar no dia em que Beatriz, não a Preciado, mas a minha amada B., arrogou-se no direito de criticar a aquisição que eu e Saulo fizemos para a antessala de nossa empresa, duas lindas telas-painel de Romero Britto. (p.44 e 45)

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Dec[ad]ência
Romance
Manoel Herzog
Patuá
2016

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