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Por
Solidade Lima - Praxes Poéticas (cap. XII)
Respeitável sempre é, quando alcança
ninguém, um livro. Escrevi-o assim, para um, dois, três... pouco mais, muito
menos... Escrevi-o para mim, sobretudo! Não para o ego, que assola os mais
insignes, mas ao Eu universal, síntese da criação. O Eu que impulsiona, máquina
de sonhos, o eixo estático do mundo.
Para mim, o que importa e o que sempre
importou foi a poesia. A poesia da vida e do papel, do tempo e do termo em seu
límpido estado de transe. A poesia que se caracol, carrossel no céu da página.
A lírica atual, entanto, (salvem-se
ressalvas) é fruto de um grande fluxo e afluxo de todo um complexo intrincado
de psicanalíticos conceitos, buscando ‘autoajudar-se’ e ajudar o mundo, dando
sentido (aparente e superficial) às crises de identidade dentro da existência,
sopro das ideias freudianas. Esquecendo-se, assim, do primaz intuito instintivo
do poético: harmonizar o caos pela beleza. A beleza que transcende, também, o
mero colorido imagético e o delírio do ideário através da louca dança das
palavras...
Lembro-me sempre de Degas e Mallarmé,
quando aquele comenta com o grande poeta francês sobre um mote que lhe povoa a
mente e não se sabe como invadir as resmas do papel: ‘Tenho a ideia de um poema
quase pronta, mas ela ainda não se contempla completamente...' No que retruca o
Vate do Livro Infinito: ‘Um poema não é feito de ideias, mas de palavras’.
O trabalho com a lírica linguagem
excede os meros mecanismos da comunicação, estende-se pelas vias do
desregramento rimbaudiano e deságua na percepção agrupada, ciente dos ladrilhos
até aqui percorridos, de olhos semi-eclipsados, entretanto, para que a razão
não nodoe os fluidos da inspiração. Esta, por sinal, vituperada fielmente por
aqueles que a julgam moldura do trabalho ‘braçal e suarento’ da tão famigerada
transpiração. Ora, os impulsos místico-elétricos que orbitam o cerne da poesia
não se sujeitam às carântulas de sentar-se frente ao sulfite ou às teclas na
triste tentativa de capturar, depois de horas e eras, o poema que escapa do
emaranhado de letras lançadas in loco. Há que se sublimar o espírito, abster-se
do pensamento puramente científico para que, aberto aos eventos mais
miraculosos e símplices do mundo (vide Barros) o verso surja e seja, sem
enforcamentos técnicos, uma ‘fluição’, como um Eufrates que caminha, solícito,
para a morte azul do mar. Isso na perspectiva de um, evidente, iniciado no solo
dos sonhos. Aquele que, para Rilke, já superara os olhares de fora,
mergulhando-se: ‘Procure entrar em si mesmo... Investigue o motivo que o manda
escrever; examine se estende suas raízes pelos recantos mais profundos de sua
alma; confesse a si mesmo: morreria, se lhe fosse vedado escrever?’
A poesia da vida, essa cadência da
alma, desaguando no atlântico das palavras, cantando a canção dos ventos por
entre as pedras. Ei-la, transubmarina, segredo das conchas serpeando à tona das
cristas, lexicalmente translúcida, límpida de si.
Solidade Lima ou,
pseudonicamente, d.S.l. poeta. Nascido na aurora de Dezembro - 1982. Escreve,
desde os tenros anos, primordialmente poesia, ensaios e máximas filosóficas. Em
abril de 2014 lançou suas três primeiras poéticas obras: "As Vestes do Vento", "Inenigmática"
e "Voos em Descuido". Prepara-se para
outras oito líricas publicações, além de um livro de ensaios e Aforismos.
Recentemente agraciado com o Prêmio Nacional de Poesias Carlos Drummond de
Andrade (2014), um dos vencedores do I Prêmio de Poesia Godofredo Filho e do
Prêmio de Poesias Damário da Cruz – 2013. É um colecionador de crepúsculos por
natureza. Possui, no prelo, o mais novo livro de sua pulsão poética: "As lâminas do Tarô" e "Os 12 Trabalhos de Hércules - Sonetos".
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