terça-feira, 16 de maio de 2017



Planeta Terra, 12 de maio de 2017 d.C.


Mestre,


O senhor não se recordará de mim (posso chamá-lo de “senhor”? desculpe-me: não se trata de formalismo ou fórmula vazia: aprendi a reverenciar os que chegaram antes e detêm muito maior conhecimento e lucidez que eu).

Como dizia, nós nos encontramos algumas vezes na Universidade. Para ser mais exato, foram quatro ocasiões:

Em 23 de março de 2000, durante a outorga do título de Professor Emérito a Aziz Ab’ Saber no salão nobre da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Aziz chegou apoiado por suas mãos.

Semanas depois, acompanhei a “Aula na Greve” que o senhor proferiu no antigo gramado da velha Reitoria (hoje ocupado pelo Complexo Brasiliana). Logo que o avistaram, um grupo de alunos curiosos perguntou por sua amizade com Mário, Oswald, Drummond… Cercado de jovens que discutiam os rumos da universidade, o senhor falou de todos eles, como se nos convidasse para ler mais e melhor. Guardo o jornal da época, em que aparecemos na mesma imagem...

No mês de outubro de 2001, assisti a sua conferência inaugural do evento em comemoração aos 40 anos do Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada. Cheguei bem mais cedo e peguei um lugar encostado à janela da sala 8 do Prédio “das Sociais”. Lembro-me de o senhor ter revelado duas “frustrações”: a de não ter formação em Letras e a de não saber Latim… Recordo de guardar a Programação do evento com carinho, orgulhoso por dividir a mesma página com o seu nome.

Em 26 de junho de 2003, o senhor deu uma palestra para a disciplina “Seminários de Antonio Candido”, a convite do (também) saudoso Professor Joaquim Alves de Aguiar, que estudava sua obra. Ao final do encontro, colhi seu autógrafo pela segunda vez – no livro Teresina e seus amigos (“Lembrança de Antonio Candido”). Uma colega tirou nossa foto, que ela depois ampliou e me entregou.

Desde então, sua imagem também vive entre as páginas de um de seus livros, juntamente com o primeiro autógrafo seu que lhe pedi em abril de 2000 (aluno impertinente que militava em defesa de melhores condições de ensino e trabalho, na universidade).

Queria lhe contar que “Dialética da Malandragem” é um dos ensaios mais impressionantes que já li. Que as suas reflexões me acompanham desde a graduação. Que dia desses, numa aula em que conversarei sobre as Memórias de um Sargento de Milícias, discutiremos seu ensaio (a meu ver, insuperável) sobre o notável romance de Manuel Antônio de Almeida. Que as suas concepções em defesa de uma sociedade mais justa e menos embrutecida estão sempre no horizonte, quando leio e comento a literatura luso-brasileira.

Haveria tanto mais a dizer, mas isso seria um ato de descortesia.

Aceite, por gentileza, esse punhado de frases que pretendem romper o estatuto de relatório e a confissão em tom de desabafo.


Muito obrigado, Antonio.
Candido.



Jean Pierre Chauvin 
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