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Đuro Janeković |
Por
Jean Pierre Chauvin
Mais dia, menos dia, darei ao prelo um manual de como
“caminhar por entre a gente”, aproveitando o célebre verso camoniano (isso soa
distinto e elegante, apesar de ter virado letra de música pelas mãos de Renato
Russo).
Não sei se graças à invenção das microtelas ou à falta de
visão para além do próprio nariz, minhas estatísticas informais confirmam que
boa parte dos transeuntes vive a esbarrar, obstruir ou mesmo empurrar seus
pares da Pauliceia, o que transformou os logradouros e estabelecimentos em
autênticos campos de batalha. Batalha renhida, diga-se, em que o interesse
minúsculo e imediato de uns interfere sensivelmente nos anseios, porventura
maiores e a longo prazo, de outrem.
Uma mente irriquieta poderia cogitar: “ah, serão lunáticos a
viver com os pés em qualquer lugar”. Digo-lhes, com veemência, que não. A ampla
maioria dos seres de caminhar truculento estão vestidos a caráter, quando não
maquiados para desfilar nas imediações do local onde estudam. Ou seja, a
concepção pragmática dos seres não os impede de esbarrar na gente que passa,
fica ou vai.
Outro sujeito poderia decretar: “ah, que é que tem? Cada um
sabe de si. Afinal, o outro não está vendo o indivíduo parado?”. Mil vezes,
não. A via pública não tem esse nome (via) por acaso. Ela implica movimento,
direção. Desde quando interromper o fluxo de dezenas de pernas converteu-se em
modo original ou adequado de transitar?
Um extremista poderia sugerir: “certas pessoas precisam ficar
em casa: só atrapalham a gente nas catracas, portas de ônibus e calçadas”. Really?
Nessas horas, o tão propalado direito de ir-e-vir é providencialmente
esquecido, justamente por aqueles que mais o invocam, quando diante de
mobilizações (as coerentes) na cidade. Assim como aquela emissora dedica a
maior parte de sua programação às novelas, telejornais e jogos de futebol,
poderíamos dizer: “Exclusão: a gente vê por aqui”.
Como se vê, há matéria para muitas páginas. Mas pensemos mais
longe. Suponhamos que esse tratado realmente genial seja editado em outros
países… Seria preciso adaptar o título, originalmente pensado em Português:
“L’art de marcher”, “The walking art”, “El arte de caminar”. O manual soaria
mais elevado e, justamente por essa razão, seria consultado por uma penca de
transeuntes que... esbarrariam, obstruiriam ou empurrariam os não-leitores, num
paradoxo dos mais incômodos: estacionar para aprender a andar.
Pensando bem, considerando os inegáveis malefícios embutidos
no tratado, será melhor restringi-lo à gaveta da escrivaninha.
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