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Isabel Allende (imagens extraídas do site oficial da escritora) |
Por Keila Bis
Muito provavelmente Isabel Allende estava usando saltos altos no dia em
que presenciou um assassinato quando visitava uma favela No Rio de Janeiro. Não
os deixa nunca. Com apenas 1,50 m de altura já se sentiu muito desconfortável
com a baixa estatura. Talvez um dos momentos mais constrangedores tenha sido
nos Jogos Olímpicos de Inverno da Itália, em 2006. Convidada a representar a
América Latina, durante o desfile seguiu – injustamente - atrás da alta e
também de saltos longos Sophia Loren. Resultado: sua cabeça ficava debaixo da
bendita bandeira que tinha que carregar e pouca gente soube quem era aquela
representante “sem cabeça”.
Mas o mal estar não se compara à péssima experiência no Rio. Do outro
lado da rua, a menos de dez metros, viu um homem se aproximar de outro que
estava no ponto de ônibus e atirar sem piedade. Ainda mais depois de ter
passado os dias anteriores com Jorge Amado (1912-2001), que lhe levou para
assistir a uma cerimônia de candomblé, jogar búzios com uma mãe de santo e ter
aprendido com a cozinheira do escritor receitas afrodisíacas que, mais tarde,
incluiu no seu livro Afrodite: Contos,
Receitas e outros Afrodisíacos.
Entre as 21 obras já lançadas, as mulheres são sempre as grandes
estrelas dos livros de Isabel que, mais por superstição do que por disciplina,
sempre começa a escrever um livro no dia 8 de janeiro. “Meus livros são
principalmente sobre histórias de mulheres. Sou feminista desde que era uma
jovem garota. Tenho trabalhado por elas e com elas sempre”, conta orgulhosa em
entrevista por e-mail.
Segundo a escritora, que nasceu no Chile em 1942, ela cresceu em uma
família e em uma sociedade machistas. “Quando ainda era uma jovem jornalista no
Chile, trabalhei para revistas e jornais que abordavam a miséria feminina. Vi
muitas mulheres com a violência estampada na cara”, relembra. Além disso, na
infância presenciou as dificuldades que a mãe encontrou ao ser abandonada pelo
pai quando Isabel ainda era criança – desde então nunca mais o viu. Para ela,
ser mulher era “sinal de muita má sorte”.
Talvez esses sejam alguns dos motivos que a levaram a querer mudar o
destino de meninas e adolescentes do Chile e de São Francisco, na Califórnia,
onde mora com o segundo marido, o americano William
Gordon com quem vive há quase 25 anos. “Em 1996, criei a Fundação Isabel
Allende com o objetivo de ajudar essas meninas em situação de risco a terem
mais amparo nas áreas de saúde, educação e proteção. Mas, na verdade, eu criei
a Fundação para homenagear minha filha Paula após sua morte. Ela sempre me
pedia para eu ganhar muito dinheiro com os meus livros para ela poder dar aos
pobres. Era muito generosa”, explica. Paula morreu de uma doença rara chamada
porfiria - infelizmente, Isabel convive com a sombra deste mal genético que
também atingiu seu filho Nicolás e seus netos.
Quem comanda a Fundação é sua atual nora Lori Barra, segunda esposa de
Nicolás que se divorciou da primeira mulher após ela contar que era lésbica - o
curioso é que a primeira pessoa para a qual ela contou o fato foi justamente
para a escritora e ex-sogra. “Isabel vê as pessoas com a melhor das intenções,
nunca as julga e quer sempre ajudar”, diz Lori, também parceira de trabalho da
escritora. No seu livro de memórias, A Soma dos Dias, Isabel revela uma
passagem íntima familiar: “Uma vez comprei
um carpete e, sem pedir licença a Lori ou a meu filho, coloquei-o na sala,
depois de mudar todos os móveis de lugar. Uma outra vez comprei uns bonitos
panos de cozinha, para substituir os trapos que eles usavam, e joguei fora os
velhos, sem fazer a menor ideia de que haviam pertencido à avó da Lori, já
falecida, e que elas os havia guardado durante vinte anos”.
O traço da personalidade intensa
se mostra também na forma que encontrou para se inspirar na criação da sua
trilogia infantil (A Cidade das Feras, O Reino do Dragão de Ouro, A Floresta dos Pigmeus) que escreveu em
homenagem aos netos. “Tomei um chá de ervas, o mesmo usado pelos índios da
Amazônia. Recuperei-me dos efeitos da droga somente três dias depois quando tive
a certeza de que somos espíritos.”
Desde a época da ditadura no
Chile, liderada pelo primo de seu pai, Salvador Allende, ela própria já
escondia os fugitivos políticos em sua casa. E depois, por ser jornalista e
“saber demais”, como ela diz, precisou se exilar na Venezuela com o primeiro
marido e lá viveu durante 10 anos - desde então, nunca mais voltou a viver no
Chile. Na Venezuela, enfrentou todos os tipos de dificuldades: o casamento não
ia bem e logo se separou; não conseguia emprego; os dois filhos eram pequenos; não
se adaptava à nova cultura; e estava longe da família que tanto amava.
Para matar as saudades começou
a escrever cartas ao avô onde narrava as histórias que este lhe contava sobre
os muitos integrantes da família. Após um ano de tantas cartas escritas o
querido avô morre e Isabel se dá conta que tinha em mãos um livro, o seu
primeiro romance, A Casa dos Espíritos.
“Ele vendeu 12 milhões de cópias. Foi e ainda é um grande sucesso. Para
mim, é um prazer imenso ser uma das primeiras pessoas a ler suas obras. Isabel
é uma pessoa maravilhosa, muito humilde”, conta Cármen Bacells, sua agente
literária, reconhecida mundialmente como uma das mais importantes no segmento.
Em 1994, o diretor Bille August transformou a obra em filme, com o mesmo nome,
que tem Meryl Streep como protagonista.
Hoje, quem visita Isabel na sua casa nova que mandou construir no alto
de uma coluna é recepcionado por um letreiro na varanda que diz: A Casa dos
Espíritos. Pois é, a escritora diz que desde os primeiros dias na nova casa já
ouvia ruídos inexplicáveis e chegou até mesmo a ver duas crianças fantasmas no
pé de sua cama. “Minha mãe quando me visitou disse que via os móveis se
moverem.”
Com ou sem espíritos, Isabel
Allende vive a partir de uma personalidade que conjuga com maestria a força
feminina e masculina. “Sou forte, afirmativa, mandona, independente, dura
algumas vezes, nunca depressiva, saudável, energética, generosa, impaciente,
crítica, vaidosa, disciplinada, trabalhadora, boa mãe, boa filha, boa amiga,
excelente avó, má dona de casa, uma cozinheira mediana e uma motorista
horrível. Eu não sou muito sociável e sou muito apegada à minha família. Eu
preciso de silêncio, de muito tempo sozinha, de chá, chocolate e de um cachorro."
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