Operação Lava-Jato, impeachment , saída do Reino Unido da União Europeia: contemporaneidades também nos cansam, o excesso de fatos do dia, a atualização excessiva, saber tudo sobre busca e apreensão na casa dum senador ou detalhes da Comissão de Ética da Câmara! Ah! Essa síndrome que é o tsunami de contemporaneidade!, o vício em estar sempre plugado na Globonews, visitar todos sites alternativos, preciso de abstração desse hoje incessante... levar-me a um não-tempo que molda um imenso Tempo de Arte, abstração reflexiva e rica em novos perceptos para a consciência atemporal.
Busco os ecos, ressonâncias do que foi e permanecerá na emotividade coletiva que vai se afunilando em poucos cultivadores de raridades sentimentais... Alguns colecionam vintage nos armários ou miniaturas na estante : eu revisito meus mitos, nossos ídolos literários, musicais, plásticos e no século XXI um novo Olimpo : a lembrança dos grandes diretores, compositores e protagonistas do cinema. O cinema representa já o que a ópera foi para o século XX : forma de expressão artística já não popular agora guardada por alguns iniciados. Isso! O cinemão hollywoodiano, o expressionismo alemão, o filme noir, o neorealismo italiano, a Nouvelle Vague são subgêreros duma grande plêiade de conhecimentos outrora vivenciados num momento agora revisitado : irmão do ballet clássico, do canto lírico, do butô ou do tango.
Uma arte de representação, de cuido, não mais fruição instantânea: horticultura, não erudição decorativa, ainda que hábito seleto ; não me considero cinéfilo, um ensaísta da imagem, semiólogo do plano longo. Um ensaio para mim é escrever não como se fala, mas feito quem pensa com seus botões : tentar divagar com sensações que espelhem outras sensibilidades por aproximação : não peçam a precisão dum guarda livros. Antes das celebridades ocas procuro falar de estrelas sem frivolidade mas nem de longe com peso dum leitor de Adorno : fascínio é fascínio assim como um charuto é um charuto... 1º de julho de 2016 marca centenária da última diva dos anos 30 do mitológico cinema norte-americano : Olivia de Havilland é o elo perdido com a era dos estúdios, as superproduções e os filmes em escala planetária : a paleolítica safra de 1939..... um texto para celebrar um passado filmado.
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Em foto publicitária aos 20 anos em 1937 e em foto de Andy Gotts |
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Em A Herdeira, Oscar de melhor atriz em 1949 |
Olivia de Havilland poderia ser definida por resistência estoica, altivez e distante resiliência entre tantas deusas histéricas ou langorosas : uma britânica nascida no Japão, avessa à submissão aos esquemas de estúdios e construtora duma personalidade não obscurecida pelo brilho das estrelas. Andei consultando alguns pensadores da modernidade : revisitei Industria Cultural e Sociedade de Adorno e Mitologias de Barthes (que maravilha de obra!), mas perdoem-me as teorizações : até intelectuais e principalmente nós que tanto escrevemos, pensamos, merecemos "hora do recreio" do deleite da admiração pura e simples! Sermos fãs!, afinal Wittgenstein não era louco pelo Mickey Mouse e Carmen Miranda?! Daqueles gigantes do cinema norte-americano só restam vivos Doris Day, Kirk Douglas e Olivia!
Quando lembramos inventamos, o que fica depura quase tudo que não seja essencial e encantado. As parcerias com Errol Flynn, amizade e coragem compartilhada com Bette Davis, rivalidade com sua irmã Joan Fontaine, bastidores de E o Vento Levou, bem, tudo isso e sempre mais vocês podem ler na Wikipédia: a finalidade dum ensaísta hoje é acrescentar com o que não rola no Google: análise, interpretação, divagação criativa. A partir de De Havilland posso discorrer sobre tudo que me toque nesse instante rico : glorificação das divas por escritores gays, laivos da admiração por Manuel Puig e Caio Fernando Abreu, hermenêutica da fugacidade, obsolescência do talento em nome da celebridade oca e sensação boa de que a literatura é onde mora hoje todo belo das artes esquecidas. Deu-me vontade de rever A dama enjaulada e ouvir algo que contraste com a sobriedade de Olivia de Havilland: talvez Xavela Vargas e um vinho rascante nada a ver com a champanha distinta que a dama centenária beberica hoje em Paris: sou poeta dos trópicos ainda que esse inverno soe atípico.... tim tim a um tempo que ainda ressoa..... porque como diria Scarlett (sorry, Melanie) : "amanhã há de ser outro dia..."
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Ao centro, em E o vento levou |
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