I
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Estátua romana do século II representando Dioniso de acordo com um modelo helenístico (Louvre) |
surge nobre da inorgânica harmonia
decantada a vinha
em estado hibernal de seca
florescendo em haste ao cálamo
vivaz primaveril eivada de sol
túmida como gestação botânica do mundo
ao estio de diáfana brisa
fecunda: ainda informe sulco
cálida sem precipitar-se cacho
ao fervor do Tempo /
vai tal corda serena da cítara haurindo
o dom futuro estado de flor em simetria
já sagrado fruto
II
A metamorfose ígnea
em verdejantes pomos
doura uvas brancas
do rubi tingindo tinto
gomos de mais rascante gosto
decantada qual verbena liquefeita
que de Eva cobrindo a vulva em manto
tórrido amálgama jaz em álcool
polpa, sementes e cascas
do mosto às cubas
vai gestando vinho
sutil encanto e acabamento
III
Nunca a razão de real
encontra o fato,
só em dionisíaco êxtase
forjamos no peito noite e aurora
báquico transe de amor em fermento
universo sem sombra ou tédio
se tudo do farto ao vazio concorre
por Eros tocado de todo amor possível
o corpo ferve qual cântaro borbulhante
o cosmo ébrio em nosso enlace amanhece
anunciando de Ganimedes a Zeus todas as primícias
madrigais em ramas dissuadindo em ti bebedor o
desencanto...
IV
Siderado vaga Baco do Estige
ao Eufrates e Ganges aspergindo
o sagrado néctar feito Apolo ensandecido
sentidos incertos / apoucado senso
de alegria contagiando seguido em cortejo
faunos e bacantes
alçar remotos mares e precipitados montes
velejando o sinuoso fado de transidos barcos
ao destino de rumorosos ventos
saudando em bojudas taças do vinho rubro
sorvendo as bagas náuticas, doce veneno
eivado de Zéfiro força aos goles sem mais
nenhum tormento cause rubor vítreo / olímpica erva
V
Aquele que da violácea seiva
goza e entorna / sob a égide de Urano ou pássaro etrusco
deita à Alma celestial sangue preexistente / mântrico
eterno das esferas / cavalo alado azul purpurado
o vinho é "erastes" fraterno / amante fecundo do desejo
terno na fragância / de ninfas e efebos, sedutor
impetuoso tal centauro e sileno
aos iniciados na paixão transtorna
ao sábio, amor apascenta
virado em anjo ou sátiro
cananeu ou fáustico
hebreu ou mefistofélico
contêm no âmago profano eco
entoando o cântico de todos cânticos
VI
Da Borgonha ao Douro
pende solitária e intrépida
a rosa guardiã de preciosa beleza
sustenta o vinhedo feito rouxinol canoro
perfume sem buquê : dorida lida
só a rosa espanta da videira amargor
e da vida azedume infame
VII
Odes, sonetos e alexandrinos
inebriados poetas / sibaritas
epicuristas nas primícias do verso
o vinho toca címbalos que retinem até
os monastérios com seus diáfanos anacoretas
torpor é o mesmo nas faces lascivas
das damas recatadas às madrugosas de vida airada
em cada boca o paladar contenta desde amor heróico
romântico, aos mais viciosos ímpetos fesceninos
VII
Na gravura impressa como carvalho a uva
o detalhe no papel de escorço molda vinco mais perfeito
que o viço natural da folha / a estrofe empenha-se fixar
expressão aproximada do sabor que foge assim que a
tristeza espanta do espírito com vinho como ao vate a
palavra justa ; feito o pomar tão formoso amolece a
raposa, o corvo e a erva daninha
IX
Da Pérsia aos caminhos de La Mancha
é o sonho mais que drama e agonia que embebidos de
alegria os jarros e botijas evocam o paraíso encarnado
no grão da vinha / Adônis ou Jacinto / Vênus ou Minerva
louvo todo raro esteta : saber dosar num Ideal supremo
conhecimento e erótica euforia
Baudelaire, Wilde ou Proust, encharco-me de vinho ao
deleite da saudade de iluminado beijo que me guia tendo
ainda mesmo a distância como insistente e sóbria
companhia / faço da pena ebúrnea, pródiga messe em
estrofes inscritas em âmbar
X
Há um tempo da rama
outro sobra-me de pensar no ofício
semeio no instante de lavrar a senda
o tempo do estio é quando umedeço por dentro
a dor passa no espaço da colheita ao tonel robusto
sigo seco e resisto pressentindo o copo:
é o vinho um oásis que jamais olvido
aroma que escoa num ritmo de gosto aveludado
XI
Quem sabe também divino fosse o mundo
se composto de paisagens de mar e ondas de vinhedos
vicejando / rendilhados galhos por arenosa costa
provençal ou lusitana, as fontes jorrassem vinho e os
regatos trouxessem mais de perto os campos Oceano
adentro... argonautas sicilianos colhendo uvas entre
íngremes rochedos
XII
Não sei se paixão ou vinho / vate, bardo ou corsário
da minha Alma: componho feito quem crê no que mente:
sentir é demais para ser dito lucidamente,
a nobre sorte está na Arte ou trago lúdico / nunca
derradeiro, Verdade está no doce ou acre gosto que eu
mesmo faço concreto pelo que invento. Ao ponto e
termo: o vinho é meu poema que colho alteando o reino
de estrelas, tendo molde insaciável a mais frondosa das
videiras / devasso ou casto / amor em talhe rompante
o vinho na razão ou peito
sinestésico diz-me ao cerne:
o que em mim pensa: transborda e sinto
gostei muito ... li e reli com calma ... informação transversa a cada verso ... bom demais, Amoreira!
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