quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Alessandro Atanes, para o Porto Literário

Escrevia na coluna anterior sobre o barco de O conto de ilha desconhecida, de José Saramago, no qual o próprio barco transforma-se na ilha desconhecida. Nessa semana, trago dois poemas de Jair de Santos Freitas (autor de quem ouço falar há muito tempo mas que só agora passou pelas minhas mãos) que dialoga com a metáfora do Nobel português de Literatura.

As duas peças estão na coletânea Rota rota (1985), editada em Santos pelo autor e amigos, com capa e ilustrações de Elisa Villares de Freitas. O primeiro, sem título, faz parte da seção Moeda Nacional, com poemas de 1974 a 1976, e começa com um jogo de pergunta e resposta…
homem algum é uma ilha?
             algum é

homilha
humilha      o       elo
                        duelo      bi
                        de       dúbias      me     ta     des


                                       bi

homine o gêmeo:
particularidades …

homem algum é uma ilha?
             algum é
… jogo de pergunta e resposta que volta ao final do texto, ensanduichando assim o jogo visual e fonético em que o poeta lida com a dualidade entre ser ou não ser uma ilha, desconhecida ou não.

O segundo poema é outro sem título, de 1979, inserido na seção Observações sobre a criação e a criatura, de poemas escritos entre 1977 e 1980. Com uma epígrafe de Castro Alves, “’stamos em pleno mar!”, o poema se direciona a enfant navire, uma criança navio (ou navio criança, porque meu francês é pouco), esse navio / barco, ainda uma ilha desconhecida a se conhecer:
enfant navire
os teus porões precisam em algum porto
de algumas duchas muita água e creoliina
e o teu velho casco
tão roto da ferrugem e dos choques
de fortes mãos que o lixem asperamente
e o libertem
com carinho
dos moluscos.

teu coração é um duende enfermo e louco
que entre saltos esgares e arquejos
pula bufa e berra
orquestrando o chiado visceral
de tuas máquinas cansadas
e sorri melífluo e maligno
dos silvos do vapor e do mormaço
que te solapam e abafam as entranhas.

vai pois
tremula tua puída bandeira de apátrida!
teu comandante é um pirata atônito
que tem por ti amor e ódio.
te ama
pois conhece a solidão que te aguarda em tua rota
e te odeia
ferozmente
porque naufragará contigo.

enfant navire
tu não temes o mar
meu pequenino velho
nem na borrasca nem ca calmaria
mas sabes há muito que bem sabes
não te ajuda o rebentar de tuas miseráveis máquinas
e tampouco a medrosa embriaguez
deste perplexo corsário
o teu valente comandante.
Será que para chegar à ilha desconhecida é necessária uma rota rota?

Referência
Jair de Santos Freitas. Rota rota. Santos: Edição do autor e amigos, 1985.

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