segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Flávio Viegas Amoreira

"Tudo é capital"
Calígula, Albert Camus


Um filme de ação que inclui todos elementos de incerteza e desespero contemporâneos: assim é o último Batman. Parece incrível que indústria do cinema exponha de modo tão surreal as mazelas dum mundo que sucumbe ao consumismo e à auto-destruição entorpecido por tentativas irracionais de redenção.

A corrupção entranhada nos interesses de oligopólios, a economia desapegada de qualquer consideração humanística, o convívio antropofágico e ultracompetitivo nas metrópoles e o conformismo das massa alienadas são barril de pólvora ao pior dos horizontes: o niilismo, o momento em que a humanidade dará de ombros ao futuro e dirá "mais nada a fazer...".

Vendo Heath Ledger no papel do Coringa reporto a outros clássicos do bizarro ou patético: Charles Laughton no Corcunda de Nocoringa-7755tre-Dame, Glória Swanson (Crepúsculo dos Deuses), Betty Davis (Baby Jane), Jack Nicholson (Iluminado) ou Anthony Hopkins (Silêncio dos Inocentes); Ledger é magistral interprete do Anticristo de Nietzsche ou do Homem Revoltado de Camus. Profético momento em que o homem com rosto marcado de dor incinera pilhas de dinheiro roubado: Batman é super-herói fragilizado diante da onipresença de interesses mesquinhos e da ausência de utopias; só o Coringa é capaz de colocar a nu a farsa das instituições, a impotência da Lei e as grandes corporações tomando lugar do Estado. A ambígua inteiração entre Bem e Mal e o fracasso dum projeto coletivo para o planeta são palco certo para Coringas aguardando o circo pegar fogo. Uma frase lapidar de Ledger, o palhaço das sombras: “A chave do caos é o medo”.

Com o fim da guerra fria, convivemos não mais com uma hecatombe nuclear, mas vários estados paralelos, bombas sujas, conflitos pelo que resta de recursos naturais e o estilhaçamento do terror: a fobia é onipresente sem acordos bilaterais ou força de dissuasão à anarquia. Quem negocia com quem? Qual última instância para tanta irracionalidade maquiada de ordem? As novas crenças servem ao bem-estar do indivíduo e sua prosperidade financeira: em cada esquina um bezerro de ouro é exaltado em nome da moral e da concorrência : as patologias agoram falam em Deus como drogas anti-desespero. O capitalismo é um fascismo em conta-gotas: o homem é livre só para querer! Não mais basta ser, nem mesmo ter, mas querer incessante. Quando todos “desejarem” querer, viveremos um cenário de O Reino do Amanhã, livro premonitório de J.G. Ballard: “Os subúrbios sonham com a violência”, diz esse mestre da ficção que antevê totalitarismo para conter a desordem numa sociedade sem perspectivas de compra às suas inutilezas.

Heath Ledger ganhará o Oscar póstumo como ícone duma juventude sem rebeldia: vejo nos que chegam só desmotivação e desassistência. Ballard luta contra um câncer legando um documento sobre um mundo perigoso e transtornado. Nessa passagem de ano as comemorações em Paris não tiveram luz e fogos de sempre: os afortunados temiam distúrbios das periferias. Vendo Heath Ledger e o sorriso deformado volto a Albert Camus e o que sobrará para essa nossa “Gotham City”: “revolta absoluta, insubmissão total, sabotagem como princípio, humor e culto do absurdo”. O caos só será vencido sem a cínica gargalhada do medo: Heath Ledger merece estatueta dourada do paraíso. Os visionários não passam do Sinai.

2 comentários:

  1. eugenio martins junior8 de fevereiro de 2009 12:29

    em gotham city, assim como em vórtex, há muito tempo o sol já virou lua

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  2. MUITO BOM SEU PONTO DE VISTA...

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