quarta-feira, 27 de maio de 2015



Por Maria Balé


Se não um título, um subtítulo. O Ser e Seus Símbolos. O que não é um, nem outro. Alusão à busca por dias luminosos como os da cidade catalã, e outras onde o sol brilha, Sem Passagem Para Barcelona é o título do novo livro do poeta Alberto Bresciani, lançado no mês de maio de 2015. Seu primeiro livro, Incompleto Movimento, foi lançado em 2011. Ambos, pela Editora José Olímpio.

Puramente construída em símbolos, a obra de Bresciani é para ser lida à luz de Herberto Helder. Nas notas autobiográficas de Photomaton & Vox, diz o grande mestre português, morto recentemente: — "O extremo poder dos símbolos reside em que eles, além de concentrarem maior energia que o espetáculo difuso do acontecimento real, possuem a força expansiva suficiente para captar tão vasto espaço da realidade que a significação a extrair deles ganha a riqueza múltipla e multiplicadora da ambiguidade. Mover-se nos terrenos dos símbolos, com a devida atenção à subtileza e a certo rigor que pertence à imaginação de qualidade alta, é o que distingue o grande intérprete do pequeno movimentador de correntes de ar". E é com essa arquitetura de signos que Sem Passagem Para Barcelona projeta as imagens que já não são mais do poeta e sim de quem o lê. Vejamos. No poema Radical, página 14 - "Como secar a umidade e o musgo e / o lodo / dessa chuva que chove por dentro?" A umidade e o musgo e o lodo já não são mais do eu lírico, e o dentro em que chove a chuva, que é dela mesma, é o dentro de quem inala a poesia. Na página seguinte, Ritual - "Meus medos e delírios engolidos / no fundo da flor / na flor da minha cama." A cama, os medos e delírios engolidos são meus, enquanto leio. Eu sou a flor. E também o fundo da flor. Nos dois fragmentos, a ressonância empática com a força de elementos arquetípicos.

Outros poemas evocam personagens, andarilhos da memória de quem visitou os clássicos universais, como Gregor, de Kafka - "Quem pode saber de Samsa / com tanta pressa para ver o nada?", em Estudo para Cinco Homens e Duas Janelas, página 33. Quem ama Mobi Dick reencontrará Ishmael na página 88, em Dos Algozes - "Ajustado o foco se vê / é firme o abraço do urso / melhor do que o engodo / de biscoitos da sorte". Eis, aqui, o herói de Herman Melville, com sua lucidez frente à ameaça do suposto índio canibal. O drama da passagem do tempo, da degeneração da nossa matéria orgânica, em Jardim, página 95 - "Erro: sem escolha / secou o rio onde nasceria / a memória". Em dois poemas curtos, Catálogo, página 35 - "Na tua boca / qualquer palavra / me cai bem" e Anestesia, página 43 - "Esqueço interrogações / no perfume / de cerejas e amoras / que promete / a tua boca", a plasticidade artística do poeta, ora induz às delícias imediatas das primeiras camadas sensitivas, ora nos remete ao legado de Sherazade, a salvação pela palavra, no mais conhecido dos contos de As Mil e Uma Noites.

Em cada poema, a possibilidade do exercício "totum pro parte", um fragmento que se adensa na pluralidade dos temas tratados com humor, ironia e a inserção de narrativas que trazem à tona perplexidades e estranhamentos diante do amor, seus enganos e a remissão, de crises existenciais, grandes ou pequenas, das perdas, os conflitos e as inseguranças num mundo indeciso entre a certeza e o equívoco. Mas, que não se engane o leitor com a elegância de estilo e a linguagem de delicadezas. A poética de Alberto Bresciani é corajosamente impiedosa. Em seus versos, os anversos de todos nós. 


Sobre a autora

Maria Balé é pós-graduada em Comunicação Corporativa pela PUC - São Paulo, tem curso de Roteiro de Curta Metragem pelo Espaço Itaú - antigo Unibanco - de Cinema, curadoria de Di Moretti, curso de extensão na disciplina Diálogos entre Cinema, Filosofia e Humanidades - PUC - São Paulo, curadoria de Cassiano Terra Rodrigues e integra o elenco dos livros Damas de Ouro & Valetes Espada, Editora MG, e Hicperconexões - Realidade Expandida, Editora Patuá. 

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