quinta-feira, 30 de abril de 2015

Pintura de Marta Penter


Aqui faz muito calor em janeiro 

Você abre a nécessaire 
então eu não vou resistir 
às coxas a óleo e aos olhos de paixão 
o que é fake no calçadão
o carro que vem devagar
a brisa a conta a pagar 
o ruído na comunicação 
entre um babaca e a vida 
não conta seu olhar
 e minha mudez solícita 
não conta seu olhar de quem 
estudou 
como eu vivo de brisa 


Botão de pânico

Nos dias em que os olhos estão atrás de mim 
Há um medo de cabeça quente 
O bafo de uma verdade qualquer 
Sussurrada até a morte farta
Uma demência de feminino 
Um requebro irrisório da fala 
Uma muleta de cabelo em coque 
O disfarce por charme da devassidão 
A exposição da ossada a céu aberto 
As asas esmiuçadas no concreto 
Golpe de pau de arara e toda ira 
Do que sou reificada 



Retrato de shortinho curto 

É aqui, abaixo da costela, 
o silêncio 
o oco do verbo 
feito carne 
exposto às moscas 
no varal do tempo 
e os turistas que passam 
viram a cara 
por puro nojo para mais uma mulher 
agonizando ao sol 
de uma cidade qualquer aqui 


Sobra a autora

Fabíola Mazzini Leone, 52, servidora pública na ilha de Vitória, essa cidade que agoniza em brisa e maresia

2 comentários:

  1. Lindos e contundentes poemas. Parabéns, Fabiola!!! Bjs

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  2. Obrigada pela leitura, Magda Carvalho. Abraço!

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