segunda-feira, 4 de outubro de 2010



Marcelo Ariel


1- Duas coisas me chamaram a atenção neste seu primeiro livro, a capa que me lembrou a estética dos fanzines, discos de punk rock e cartas anônimas e a sensação de que todos os poemas formam um único poema, é impressionante a organicidade dos poemas do livro, você concorda com isso ou os vê como pedras de toque ou núcleos isolados que não se conectam entre si?

Resposta: Você foi, Ariel a única pessoa que teve a sensibildidade que identificar que, na realidade, o livro "Ausências" começa pela capa. A criação da capa foi feita pelo poeta Dailor Varela, onde ele fala a respeito " Utilizando de um branco mallarmaico e de um grafismo, onde as letras são apenas signos, a capa é um poema visual, uma provocação e inquietação que a autora continua nos poemas no livro, com seus versos extremamente sintético, cercados pelo mesmo branco mallarmaico." Quanto aos poemas, não os vejo como núcleos isolados, todos tem uma ligação, embora um não complete o outro. Cada um tem seu momento, sua história.



        2- Ao abrir o livro com duas epígrafes, uma de Caetano Veloso e outra de Bob Dylan, você para mim amplia o sentido do título, isso é algo que pode passar despercebido, o título do livro e as epígrafes , o todo me transmitiu um desencanto,a idéia de que houve a tentativa de síntese do desencanto e seus poemas evocam a economia do epigrama, são comoa fotografia de uma emoção que em vários momentos me pareceu uma meditação sobre a impermanência e o desencanto. O que você pensa a respeito disso?

Resposta: É claro que Bob Dylan e Caetano Veloso não estão lá por acaso. Os poemas do meu livro são reflexões filosóficas. Muito antes de Caetano e Dylan, os filosófos gregos já tinham essa mesma reflexão, base de toda filosofia, que passa pelo existencialismo de um Sartre. Você como poeta e livre pensador sabe que a matéria prima da poesia é o olhar as inquietações e traduzi-las em versos. É  uma viagem para dentro, que aliás é o título de uma das canções do Milton Nascimento. Eu estou no começo dessa viagem e não seria cabotina em afirmar que sou uma grande poeta. Estou apenas engatinhando.


        3- Uma palavra recorrente em muitos poemas é justamente 'palavra', mas os seus poemas escapam por pouco do vício da metalinguagem tão comum em poetas contemporâneos e se aproximam mais de uma percepção da  'ilusão literária', como a chamava o grande e esquecido crítico Eduardo Frieiro, o que significa para você o tal 'dom da palavra', uma maldição como afirma o poeta Dailor varela na apresentação do livro ou o oposto disso?

        Resposta: A partir do momento em que eu escrevo e leio muita poesia; as palavras passaram a integrar meu universo cotidiano como o ato de respirar. Imagine você que eu já sonhei com palavras rondando soltas pelo meu quarto. É esta intimidade imaginária com as palavras que me fazem escrever, posso até ser obssessiva nesta intimidade. Sobre o " dom" de lidar com palavras é uma discussão bem polêmica. Creio que todo poeta tenha uma ligação com forças cósmicas e que não podem ser explicadas á luz da razão.  


        4- Fale um pouco sobre o jornal O GRITO e sobre a convivência literária, se é que podemos reduzir a um termo como esse algo tão amplo, com seu pai, o jornalista e escritor Dailor Varela?

        Resposta: O Jornal O GRITO, de circulação mensal, distribuição dirigida, estamos nessa luta há três anos. A ideia de se fazer um jornal cultural foi um desejo de renir cabeças pensantes. O poeta, escritor são seres desesperadamente solitários. Como diz uma frase do poeta Fernando Pessoa " Ser poeta não é uma ambição minha, é a minha maneira de estar sozinho". O GRITO tem um prazer de ver " a tribo toda reunida" como diz uma canção do Beto Guedes. A convivência com meu pai Dailor Varela é de uma aprendizagem diária. Acrescento aqui que o fato de morar com o escritor, jornalista e meu pai não teve qualquer herança genética. É óbvio que tenho ao minha disposição uma boa biblioteca de poesia e isso é um privilégio para meu trabalho como poeta. Por outro lado, meu pai não tem a "corujice" de me incentivar a ser poeta. Ele é apenas um leitor rigoroso e crítico como qualquer outro.


        5- Como você vê a cena literária e a situação do livro, do leitor e do autor nos dias de hoje?


Resposta: Vejo como uma triste realidade. Livro é um objeto " estranho" para a grande maioria das pessoas. Principalmente poesia. Costumo muito frequentar sebos e já teve casos que quando cheguei a perguntar onde se encontrava livro de poesia, a pessoa se assustou. Há um desinteresse geral, por mais absurdo que possa parecer no meio cultural do Vale do Paraíba, SP ninguém conhecia um livro de uma Ana Cristina Cesar, um Roberto Piva, um Maiakovski, um Dylan Thomas e por aí segue. Poucos são os poetas e escritores quem o hábito de ler bons autores. O livro jamais acaba, para mim não tem prazer maior do que você pegar um livro para ler, folhear, tomar nota do que mais te interessa. O que falta é uma pesquisa intensa da parte dos escritores e muita leitura.

6 comentários:

  1. Agradeço pelo espaço cedido, obrigada!

    Abraços!

    Máh Luporini

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  2. Muito boa entrevista para um entrevistador cioso e curioso, qualidade que não se encontra em muitos jornalistas por aí. Parabéns aos dois.

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  3. Esta poeta tem me deixado de costas ao espelho.
    Aos poucos vou me virando, descobrindo.
    Valeu a entrevista.

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  4. Parabéns Mah, boas respostas para boas perguntas. Seu talento sendo reconhecido, abraço forte.
    Ivan Neder

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  5. Salve,Maíra ,sensível entrevista.Amei!Beijo,Dyrce

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  6. Máh
    Sou tua fã.
    Palmas,bis e beijos.

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